Dachshund: muitas versões de um cão adorado no mundo todo

Dachshund standard pelo curto na cor vermelho: a variedade mais popular da raça – Foto: Edmilson Reis/ Cão: BIS, BISS, GrCh – Vivi da Boa Barba/ Propr.: Canil Boa Barba
Confira panorama geral da criação desse baixote alemão que possui nove variedades e está entre as raças mais conhecidas do mundo

O Dachshund ou Teckel, mais conhecido sob o carinhoso apelido de “salsichinha”, é uma das raças mais populares no mundo até hoje. De origem alemã, esses baixotes cheios de personalidade ocupam um grupo inteiro na classificação da Federação Cinológica Internacional (FCI), o grupo 4. Assim, embora o Dachs pelo curto seja o mais conhecido mundialmente, há nove variedades que se diferenciam por tamanho (kaninchen, miniatura e standard) e tipos de pelagem (curto, duro e longo). “O Dachshund clássico, original, é o de pelo curto. Os outros dois carregam caraterísticas das raças que trouxeram estas pelagens no Dachs, ou seja, o Schnauzer para o pelo duro e o Cocker para o pelo longo”, revela Oscar Plentz, que se dedica à criação de todas as variedades de Dachshund há 26 anos pelo canil Boa Barba, de Porto Alegre. Até pouco tempo, a nomenclatura Anão também era utilizada para designar os exemplares que hoje são chamados apenas como kaninchen. “A nomenclatura Anão só era utilizada aqui no Brasil e soava um pouco estranho”, aponta Carlos Mafra Pedroso Neto, de Curitiba, que cria Dachs há 41 anos pelo canil Treis Pinheiros. Oscar ainda diz que o uso de nomenclatura diferente da usada pela FCI – a qual somos filiados no Brasil – causava entraves na comparação de registros com outros países afiliados. 

Daschund standard pelo duro na cor javali: Grande Vencedora Nacional Grande Ch Uru e Brz Treis Pinheiros Cookie and Creams SW – Foto: Edmilson Reis/ Propr. e criação: Canil Treis Pinheiros

Embora haja muitas variedades, o que as diferencia, no geral, é o tipo de pelo e o temperamento. “Estruturalmente não existe diferença, o padrão é o mesmo para as nove variedades”, enfatiza Carlos. “Independentemente do tamanho ou do pelo o que me encanta na raça é o seu temperamento companheiro e fiel e sua rusticidade. O Dachs pelo curto é mais brincalhão, o pelo longo mais amável e o pelo duro mais companheiro do dono”, continua o criador, que desmitifica a fama de “agressivo” do Dachs. “A agressividade não é aceita na raça. São cães valentes que defendem sua família, mas jamais devem demonstrar qualquer sinal de agressividade aos membros da família. Cães com este tipo de temperamento jamais devem ser acasalados”, afirma. 

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Criação da raça

Dachshund pelos curtos: um standard vermelho (à esq.) e um standard merle (à dir.) – Foto: Nelson Reis/ Cão: GrCh -Hércules Midnight Express Mark Mass/ Propr.: Canil Boa Barba, Marcos Aureliano e Betty Lais/ Handler: Nicholas Bottini – Foto: Thábia Padin/Cão: Ch Bras -Ocla da Boa Barba/ Propr.: Canil Boa Barba

Segundo a Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), os miniaturas pelo longo e pelo curto foram os que mais registraram exemplares em 2020, com 203 e 201 cães, respectivamente, colocando-os na 58ª e 59ª posição na ordem geral de registros, logo atrás das raças Shar Pei e Pequinês. Em seguida, o Dachshund standard pelo curto teve 102 registros; o kaninchen pelo longo, 64; o kaninchen pelo curto, 45; o miniatura pelo duro, 21; o standard pelo duro, 14; o standard pelo longo, 11, e, por fim, o kaninchen pelo duro teve 5 cães registrados. 

Oscar diz que ainda há muitos aficionados pela raça, principalmente aqueles que já tiveram Dachs no passado. “Por outro lado, ele sofre com a concorrência de outras raças. Além disso, o standard, com seus 10 kg, não é um cão tão pequeno, o que faz cair sua procura”, comenta. Carlos concorda e acrescenta que, no Brasil, existem vários criadores sérios que trabalham no melhoramento da raça, e o fato de ter havido a diminuição da procura pela raça é que ela não está mais na ‘moda’. “O aumento no número de raças ofertadas diluiu o mercado onde os Dachshunds estavam inseridos”, comenta Carlos, que avalia a presença da raça em exposições como baixa, principalmente pela raça de ter de um grupo inteiro somente para ela. “Há, em média, entre 10 e 15 cães entre todas as variedades, mas me parece que teremos um maior número de competidores no pós-pandemia”, avalia. Oscar acrescenta que nem sempre todas as variedades estão representadas em exposições, mas sempre há cães da raça. “Quando tem a Nacional de Dachshunds, chega-se a 40 cães da raça competindo”, destaca.

Sobre a rotina de criação, Oscar aponta que é uma raça de manejo relativamente fácil, pois são muito sociáveis. “Eles conseguem e gostam de viver em grupo, o que facilita o manejo. Apenas precisa ver a compatibilidade de gênio de cada um e vários podem ficar juntos. Inclusive é legal ver como se aninham para dormir”, aponta o criador. Oscar ainda alerta sobre a criação de exemplares ditos exóticos. “São cães com grandes partes brancas no corpo, o que é  fonte de cegueira e surdez adjacente.”

Dachs standard pelo curto na cor vermelho – Foto: Edmilson Reis/ Cão: Am Ch Laddland Flyboy

Pelo curto: o queridinho dos brasileiros

 Embora os Dachs pelo longo tenham alcançado o pelo curto em número de registros, a variedade pelo curto ainda é a mais conhecida por aqui. Segundo o padrão oficial CBKC/FCI, a pelagem dessa variedade deve ser densa, brilhante, assentada, cerrada e áspera. 

Carlos, que já criava a raça antes de seu auge de popularidade, quando havia o comercial dos amortecedores Cofap no ar (que aliás, foi atualizado e veiculado novamente em 2018), conta que o primeiro exemplar da raça que teve foi uma fêmea miniatura pelo curto, embora hoje ele só crie Dachs standard pelo duro e pelo curto. “No passado já criamos Dachshund pelo longo, pelo curto e pelo duro miniatura”, acrescenta ele, que descreve a variedade pelo curto como sendo mais agitada e travessa que as demais. Oscar concorda e acrescenta a versatilidade como outra qualidade, já que são cães de companhia e também esportivos, pois têm resistência para corridas e caminhadas. 

Segundo os entrevistados, a cor vermelha sólida (cão inteiro de uma só cor) é a mais requisitada e conhecida na raça na variedade pelo curto – popularmente ela é chamada de “caramelo” pelos tutores. Os exemplares preto e castanho (também chamados de black & tan) também são bastante requisitados. “Há também uma grande procura pela cor chocolate”, aponta Carlos. 

A cor merle, que tem o seu público, também é aceita pela FCI/CBKC. Nela, os cães possuem a base da pelagem de cor escura com manchas irregulares de cinza e bege (em menor quantidade) e podem também ter a base castanha. Já a cor menos conhecida é a tigrada, cuja base da pelagem é vermelha com listras escuras. 

Pelo longo: em crescimento

Dachshund pelo longo miniatura na cor black and tan – Foto: Canil Treis Pinheiros/ Cão: Ch BRZ Salatinos Desiderata/ Propr.: Canil Treis Pinheiros

Essa variedade da raça é a que está em ascensão no Brasil. “Os Dachs pelo longo são muito amáveis”, atesta Carlos. Além da amabilidade, outro ponto forte da raça é a pelagem. Segundo o padrão oficial CBKC/FCI, ela é lisa e brilhante, com subpelo e bem ajustada ao corpo, alongada apenas na parte inferior do pescoço e do corpo (ficando pendente como uma cortina) e na parte de trás dos membros (franjas), onde os pelos são bem mais compridos, principalmente na parte inferior da cauda, onde forma uma espécie de “bandeira”. “Eles têm os pelos sedosos”, complementa Carlos, que atribui ao crescimento da variedade o aumento de importação de exemplares pelo longo. “Acredito que o apelo comercial desta variedade também tenha ajudado no crescimento”, diz.

Oscar destaca que, com a ascensão de raças pelo liso e longo, como Shih Tzu, os dog lovers perderam o receio de cuidar de cães com esse tipo de pelagem que, antes era vista como trabalhosa. “Hoje em dia as pessoas têm ao dispor inúmeros pet shops para dar auxílio no trato dessa pelagem, embora a manutenção deles não seja trabalhosa, pois basta penteá-los durante os banhos periódicos”, complementa Oscar. 

Na variedade pelo longo, os bicolores preto e marrom são os mais populares no Brasil, seguidos dos exemplares vermelhos sólidos. “Tem havido uma grande procura pela cor merle ou arlequim nessa variedade”, acrescenta Carlos. Um alerta é válido para quem busca por cães dessa cor, acrescenta Oscar: “é sabido que o gene do branco, que está presente nos arlequins, tem ligação com surdez e cegueira. Por isso, não se deve cruzar arlequim com arlequim, pois aparecem exemplares com grandes manchas brancas e com problemas congênitos”. 

Dachshund miniatura pelo longo na cor arlequim – Foto: Emerson Oliveira/ Cão: Ch Bras – Quin da Boa Barba

Pelo duro: raro no Brasil, pop na Europa

 O Dachshund pelo duro, segundo o padrão oficial FCI/CBKC, deve ter uma barba claramente definida, sobrancelhas espessas e um subpelo totalmente ajustado e uniforme, denso e coberto com pelos duros (de arame) no corpo. “O pelo duro também deve ter botas bem marcadas, mas sem exagero”, acrescenta Carlos, que diz ser a variedade mais disseminada na Europa. “É bastante apreciada na Alemanha, Itália, França e demais países da Europa, superando em número as demais variedades”, aponta Carlos, que diz ser fascinado pela variedade pelo duro. “Os Dachs pelo duro são os mais reservados das três variedades, mas extremamente fiéis e companheiros”, descreve. Já Oscar, cujos primeiros cães da raça que teve foram Dachs miniaturas de pelo duro, um casal que ganhou de uma amiga argentina que criava Schnauzers – raça a qual o criador também se dedica –, define essa variedade como sendo a mais atenta ao dono. “Por isso que é a mais usada para as atividades de caça na Europa. Além disso, são mais resistentes ao frio”, diz.

Segundo Carlos, a baixa demanda do pelo duro no Brasil se dá por ela exigir um cuidado mais específico com a pelagem. “Eles exigem pelo menos um stripping anual e manutenções periódicas para que o pelo seja mantido com a aparência desejada do padrão”, revela. 

Quanto às cores, os poucos exemplares da raça presentes no Brasil são das cores javali (maioria). “Normalmente, procura-se pela cor javali por ser mais fácil trabalhar com o pelo, seguido pelo castanho. Evita-se o preto e castanho por, normalmente, não possuir subpelo”, revela Carlos.  

À esquerda, Dachshund miniatura pelo duro na posição frontal, onde se consegue observar a diferença de tamanho em relação ao standard e kaninchen. Ao lado, Dachs miniatura Campeã Russa e Brasileira na cor vermelha – Foto: Emerson Oliveira/Cão: Ch Bras Snoopy da Boa Barba/ Propr.: Canil Boa Barba – Foto: Patrícia Romanelli/ Cão: Ch Magik Rainbonw Original Quality/ Propr.: Canil Treis Pinheiros

Segundo os criadores entrevistados, são três as linhas de sangue básicas da raça: a americana (que segue padrão do American Kennel Club – AKC, que possui apenas duas variedades de tamanho – Miniatura e Standard); a europeia (que segue padrão FCI, assim como no Brasil); e a inglesa (que segue o padrão do The Kennel Club, também com apenas dois tamanhos descritos para a raça – Miniatura e Standard). “Cada vez mais observamos a fusão destas linhagens devido à importação entre os diferentes países. No Brasil prevalecia a linhagem americana pela facilidade da importação, mas hoje, encontramos vários cães europeus. Da mesma forma que cães brasileiros também têm sido largamente usados na Europa. Os cães americanos são meus preferidos, porém cada país tem uma variedade que se destaca. Rússia e Leste Europeu tiveram um avanço gigantesco na criação nos últimos anos”, revela Carlos.   

Dachshund standard pelo duro na cor black and tan: essa cor é a menos conhecida – Foto: Karla Viana/Cão: Ch Bras e Amer y Caribe – Miler da Boa Barba

Linhas de sangue da raça

Já Oscar aponta que os cães americanos são mais baixos que os europeus, e outra questão são os padrões oficiais (americano e inglês não mencionarem tamanhos menores (os kanninchens). “No Brasil há mais o tipo americano e, ao mesmo tempo, se vê que, embora resistam, há influência americana também na Europa. Não adianta a Alemanha ficar trocando o padrão várias vezes como tem feito”, compartilha.

Cores não reconhecidas

 Carlos alerta que existem cores que não são aceitas na FCI, porém são aceitas pelo AKC, como a cor creme no pelo longo. “Porém, essas cores não afetam a saúde do animal como acontece com algumas cores exóticas, a exemplo do branco com manchas ou arlequim duplo, fatores que podem trazer consigo problemas genéticos aos exemplares. Cães azuis (cinza) ou com parte do corpo azul também não são aceitos”, alerta. 

Dachs de destaque 

Dachshund pelo duro Maisie e sua tutora Kim McCalmont: a cadela venceu o título de melhor cão de toda a exposição na Crufts 2020 – Foto: Jon Freeman/Alamy

Uma prova da fama da variedade pelo duro na Europa é a recente vitória de um Dachshund pelo duro em um dos maiores campeonatos caninos do mundo, o Crufts, realizado em 2020, em Birmingham, Reino Unido. Maisie (cujo nome oficial é CH Silvae Trademark), da inglesa Kim McCalmont, venceu o título Best in Show (BIS), ou seja, o melhor cão de toda a exposição, que conta com 24.000 competidores vindos do mundo todo. “Tal prêmio atesta a qualidade de criação da raça em alguns países. Esta fêmea que venceu o BIS, inclusive, é neta de um cão meu, o Treis Pinheiros Zuchinni”, aponta Carlos, que já teve cães de sua criação com título de BIS em diversos países. “Tenho quatro campeões mundiais, ganhadores de raças e sexo oposto na Crufts. Também já vencemos a Nacional Americana (fomos o único canil de fora da América do Norte a vencer esse título) e, recentemente, ganhamos dois BIS na Rússia, além de termos ganhadores de BIS nas Américas, Europa, Ásia, África e descendentes de nossos cães espalhados pelos cinco continentes”, orgulha-se Carlos. 

Saúde

O Dachshund é uma raça classificada como condrodistrófica, assim como outros cães, a exemplo do Pequinês, do Beagle, do Shih Tzu e do Basset Hound. Esses cães possuem o eixo dos ossos longos torcidos e encurtados, o que dá esse aspecto de rebaixado nessas raças. “No Dachs essa característica foi reforçada ao longo dos anos, para que eles pudessem entrar nas tocas durante a caça”, explica Carlos. Portanto, é preciso estimulá-los a fazer exercícios para estar com a musculatura forte, a fim de que não sejam acometidos por enfermidades como a doença do disco invertebral cervical ou, ainda, a hérnia de disco. Oscar comenta que problemas de coluna em exemplares de qualidade são mais raros. “Outro ponto é que são comilões e devem ser mantidos num peso adequado. Nada de cães obesos e com falta de exercício. Isso prejudica muito a saúde dos Dachshunds”, enfatiza. 

Nos plantéis, os exames feitos pelos criadores da raça são o de patela, para detectar luxação de patela e possíveis desvios angulares; o de olhos, para se certificar de que o exemplar não sofre de atrofia progressiva de retina; de tireoide, para evitar hipotiroidismo; e eletrocardiograma, para detectar se há sopro cardíaco. Esses exames são importantes, pois todos esses problemas são hereditários e, com tal controle no plantel, a raça fica ainda mais saudável, aponta Carlos. 

Escolha do filhote

Para você que pretende ter um Dachshund como pet, Carlos dá os seguintes conselhos: “observe se o estado de saúde geral do filhote, sem tem vacinação e vermífugação em dia; se ele é ativo e tem proporções bem equilibradas”. 

“Nunca escolha filhotes de olhos azuis ou claros. Podem parecer ‘bonitos e exóticos’, mas é prenúncio de problema. Além de fora do padrão, podem causar cegueira. Ao mesmo tempo, peça filhotes de pais premiados em exposições, pois estes são cães certificados por especialistas e conhecedores de cães”, finaliza Oscar. 

 

Por: Samia Malas

CARLOS MAFRA PEDROSO NETO, canil Treis Pinheiros – (41) 9973-2160. Site: www.pedroso.com.br;
e-mail: pedroso@pedroso.com.br; Facebook @TreisPinheiros


OSCAR PLENTZ, canil Boa Barba – (51) 3266-7057 ou 99982-9229. Site: www.boabarba.com.br;
e-mail: oscar@opma.adv.br Facebook: @canilboabarba

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