Pesquisas caminham para o uso de cães na triagem de pessoas infectadas por vírus, além de muitos outros benefícios

Cães são capazes de farejar inúmeros odores ou “perfumes”, termo utilizado pelos adestradores que atuam na área de treinamento de cães farejadores. Assim, nosso melhor amigo é amplamente usado pelos humanos em diferentes funções, como rastreamento de pessoas, drogas, explosivos e até de doenças, como diabetes, câncer e epilepsia. Com tantas habilidades, desde o início da pandemia de COVID, em 2019, adestradores, cientistas e pesquisadores do mundo todo vêm estudando e desenvolvendo pesquisas que permitam a utilização de cães no combate e controle da pandemia. {PAYWALL_INICIO} Muitos são os esforços e exemplos de universidades focadas neste fim. Recentemente, a Florida International University realizou, no aeroporto de Miami, testes com cães treinados para farejar pessoas infectadas pelo vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19. Quatro cães foram treinados nessa universidade, e, em setembro de 2021, a Pastor Belga Malinois Cobra e a Pastor Alemão One Betta participaram do teste piloto no aeroporto. Outro trabalho que vem sendo realizado para treinar cães com esse objetivo é o da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em parceria com a Escola de Medicina Veterinária de Alfort, na França, e o adestrador Jorge Pereira, da Unidade K9 Internacional, de São Paulo, que hoje também conta com a parceria da Universidade São Paulo (USP), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) no projeto.

Jorge trabalha com cães há 26 anos, sendo que, há 15, treina cães operacionais, de faro, e, há 5, biodetecção, que é justamente a técnica utilizada no treino desse estudo, por meio da qual o cão aprende a farejar componentes voláteis orgânicos específicos presentes em catabólicos como urina, transpiração, fezes e saliva de humanos. Jorge explica que a primeira fase do projeto foi finalizada e implicava na descoberta da capacidade de cães em detectar uma pessoa com infecção viral, “algo que pouco tinha sido realizado até o momento. Antes disso, havia cães que detectavam apenas a malária, e, em 2007, eu treinei um deles, que detectava focos de mosquito da dengue, um trabalho inédito no mundo”, destaca o adestrador, que também tentou identificar se seria possível que cães detectassem o perfume do SARS-CoV-2. “Entendendo que não era possível identificar o cheiro do vírus em si, passou-se a trabalhar então as reações do organismo frente à COVID-19 e quais eram os odores emitidos pelo combate do organismo contra essa infecção viral”, explica Jorge. Assim, o processo de treinamento dos cães para detectar pessoas infectadas por vírus seguiu passos semelhantes ao do treinamento utilizado para a detecção de crises em diabéticos, dois processos bastante similares, inclusive, no trabalho de identificação, armazenamento de amostras, laboratório e parâmetros de estudo. “Os picos glicêmicos são identificados por catabólicos também, pela transpiração e, principalmente, pelo hálito. Na infecção por COVID-19 idem. No nosso hálito, o cão é capaz de farejar componentes extremamente identificáveis para ele. Por isso que, muitas vezes, quando estamos falando perto do cão, ele começa a farejar a nossa boca. Muitos acham que ele quer dar beijinho, mas, na verdade, está identificando odores, principalmente de hormônios, que são altamente atrativos aos cães”, detalha Jorge.

PRIMEIROS PASSOS DOS ESTUDOS
Na primeira fase do estudo, a equipe obteve média de 94% de acerto nos testes realizados com os cães que foram expostos às seguintes amostras: saliva de pessoa que testou positivo em teste PCR e pessoa que testou negativo em teste PCR. “Alguns cães tiveram100% de acerto. Essa margem de erro entre os cães também fez parte do estudo, para percebermos qual o perfil de cão que desempenha melhor a função. Por isso escolhemos cães de portes diferentes, sexo, raça etc.”, comenta Jorge, que inclusive usou muitos Sem Raça Definida no estudo e raças como Beagle, Yorkshire Terrier, Labrador e Pastor Australiano. “Essa diversidade também ajuda a testar e observar as condições operacionais, como se daria o treinamento, onde eles poderiam atuar com mais facilidade, logística de transporte dos cães, se os cães trazem desconforto às pessoas que vão ser assistidas por eles. Cães como o Beagle são amigáveis, são pets populares, que não passam uma imagem agressiva e têm grande capacidade olfativa e grande sensibilidade a odores orgânicos”, comenta o adestrador.
DESAFIO FINAL
Feito esse levantamento inicial, as amostras utilizadas eram separadas e catalogadas na Universidade de Pernambuco, e o registro geral dos testes era enviado para lá. “Esse trabalho resultou na publicação de um artigo científico em revista internacional em 2021e marcou o início da segunda fase do projeto, que tenta identificar se cães conseguem diferenciar pessoas com COVID-19 de outras infecções virais, como gripe comum, H1N1, dengue etc.”, aponta Jorge. Feito isso, o próximo passo será sintetizar e analisar os perfumes contidos nas amostras de COVID-19 e comparar com outras síndromes e pessoas sadias. “Assim, conseguiremos treinar cães em uma escala maior e abrir a parte operacional, principalmente para países do terceiro mundo, onde há dificuldade de se disponibilizar testes. Então, iremos oferecer nosso know-how de treinamento para cães para poder viabilizar esse pré-diagnóstico feito pelo cão”, diz. “Outro fator também muito importante desse estudo é que, se o cão é capaz de identificar uma infecção viral, ele também é capaz de identificar outros perfumes em uma escala molecular, sendo possível prevenir outros vírus e doenças em humanos e outros animais, inclusive os de grande produção, como bovinos, aves, equinos etc.”, acrescenta Jorge, que atribui a grande capacidade olfativa dos cães a um processo evolutivo e um “capricho da Natureza” em desenvolver um olfato tão sofisticado. “Através do olfato, um cão consegue saber exatamente em que fase do ciclo reprodutivo uma fêmea está, detectar o nível de testosterona de um macho rival ou, ainda, obter informações sobre um grupo de cães e, sobretudo, identificar sinais orgânicos de uma presa. Ou seja, sua capacidade olfativa evoluiu ao ponto de ele poder se alimentar, reproduzir e identificar outros membros através de odores e nas condições mais complexas possíveis”, finaliza o adestrador.
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Agradecemos Jorge Pereira, Fundador da empresa Unidade k9 Internacional. Presidente da ALKC América Latina Kennel Club. Membro e Certificador da AWDA American Working Dogs Association, com sede nos EUA. Membro da ALCOO K9, Associacion Latino America de Certificação de Operadores k9, com sede no México. Membro da CIBYR- SAR Comitê Internacional de Busca e Resgate, com sede no Chile. Protagonista da Série exibida no National Geographic Radar Pet. Participação na equipe de pesquisa de Cães Farejadores de Marcadores Molecular/COVs, conduzida pela Universidade Rural Federal de Pernambuco. Integrante da equipe de pesquisa sobre Biomarcadores e Sintetização de Aromas da UNIMEP-Piracicaba. Docente na Pós-graduação Lato Sensu em Cinotecnia Policial UNICESDH/IPEPE. Tema Cães de Biodetecção Unicesd, IPE.
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