Esses cães são exemplos de afeto e estabilidade, favorecendo a constância emocional de pessoas que sofrem desse Transtorno

Que os cães são capazes de encher a casa de alegria, todo mundo sabe. Fiéis escudeiros de seus tutores, sempre prontos para dar e receber carinho, não poupam esforços para agradar seus humanos favoritos, a quem defendem de qualquer perigo. Quando devidamente treinados e inseridos na rotina de pessoas atípicas, proporcionam inclusão social, segurança e autonomia, trazendo mais qualidade de vida a todos. “Um cão preparado possui a ‘aceitação incondicional’ dos comportamentos de uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), tornando–se, além de fiel companheiro, um exemplo de afeto e estabilidade, o que favorece a constância emocional”, descreve a psicanalista Liana Pires Santos, fundadora da Clínica e Equoterapia GATI (Grupo de Abordagem Terapêutica Integrada), autora do livro Os Animais e seu poder terapêutico e membro da direção do Instituto Reddogs Cães Terapeutas, em São Paulo, ao lado do adestrador e fundador do Instituto, Ronaldo Novoa.
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COMO TUDO COMEÇOU

Ronaldo sempre sonhou em ter um Dogue Alemão, mas, por conta do seu tamanho, dos custos e do trabalho que a raça demandaria, seus pais sempre tiveram cães menores em casa. “Até que um dia comprei uma Dogue Alemão fêmea, a Kirsha. No começo tudo era festa, mas em poucos meses ela ficou enorme e não sabíamos lidar com suas ‘mancadas’, que eram proporcionais a seu tamanho. Um dia ela simplesmente dormiu no teto do carro e essa foi a motivação principal para eu entrar no mundo do adestramento. Ou eu e a Kirsha seríamos expulsos de casa”, brinca. Assim, Ronaldo passou a ler livros sobre adestramento e frequentar um grupo de adestramento às segundas e quartas, como adestrador Katito.
PET TERAPIA
O interesse de Ronaldo em relação à terapia com pets começou entre 2008 e 2009, quando encantou-se com as histórias de uma treinadora que levava cães a asilos e buscou saber mais a respeito. “Em seguida, conheci o GATI e a Dra. Liana Santos e de lá pra cá criamos uma parceira e tivemos muitos aprendizados”, conta o adestrador, que em 2022 criou o Instituto Reddogs, entidade sem fins lucrativos que seleciona, treina, prepara e doa cães para pessoas com deficiência. “Nós treinamos cães para auxílio a pessoas com autismo, epilepsia, depressão, síndrome do pânico, paralisia cerebral, apoio emocional, síndrome de Down, Parkinson, câncer e problemas motores em geral. Atuamos em residências com problemas comportamentais mais severos onde a família já tentou quase tudo, mas não consegue uma solução”, relata Ronaldo. Ele explica que cada situação pede um adestramento diferente porque são necessidades específicas. “O processo dura em torno de dois anos, entre escolha do filhote, exames, vacinas, família socializadora, treino básico, treino específico, doação e acompanhamento por mais alguns meses”, diz.
ACESSO AOS CÃES DE APOIO

Para conseguir se beneficiar com um cão de apoio, existem basicamente três situações: na primeira, a pessoa se cadastra no site para receber gratuitamente seu cão treinado, e o Instituto faz a seleção com base na personalidade dos cães disponíveis e na rotina da família e autonomia da pessoa com deficiência. “Nós só vamos ter contato com a família depois que fizermos o treinamento básico”. Uma segunda possibilidade é quando a pessoa já tem um cão e quer que ele seja treinado com a nossa metodologia. “Aí fazemos a avaliação da família e do cão e, infelizmente, a maioria comprou o cão errado ou já tem tantos vícios que o trabalho será enorme. Nesses casos, propomos um valor, e o recurso é direcionado ao Instituto Reddogs. Na terceira situação, a família nos contrata e fazemos desde a escolha do filhote até a entrega do cão. A escolha começa com canis parceiros, que primam pela boa genética e pelo temperamento de seus cães. Regras de socialização, treinos básicos e específicos vão moldar os comportamentos esperados para que, na fase de conciliação com o cadastro de famílias, seja tudo suave e consistente”, explica Ronaldo. O custo é todo da família e o recurso também é destinado à manutenção das atividades do Instituto. O tempo de treinamento de cães varia conforme o caso. Para os filhotes com a mãe e os irmãos pode levar de 60 a 70 dias; com nossa equipe de socialização, de 70 a 110 dias; com uma família socializadora (que tem a função de mostrar o mundo ao filhote), de 4 a 12 meses; com treinos básicos, de 12 a 20 meses; e com treinos específicos já na casa do beneficiado, de20 a 24 meses.
AUXÍLIO NO ESPECTRO

Não se pode determinar um perfil adequado a todas as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). “Há uma gama de níveis de autismo e características específicas de cada indivíduo. Por isso os cães não podem ser iguais. Mas, no geral, buscamos animais calmos, equilibrados, de fácil aprendizagem, porte médio e que criem vínculos com facilidade”, revela Ronaldo. “A raça não é tão importante, mas prefiro o Pastor Australiano, por conta do seu porte, da rusticidade quanto a doenças e da alta capacidade de aprendizagem”, diz o adestrador. O trabalho consiste em preparar o cão para criar um vínculo sólido com o autista. A psicanalista Liana Pires explica que o cão beneficiará a pessoa com TEA especialmente nas áreas relacionais. “Ele com certeza favorecerá a sociabilidade e as vinculações afetivas e poderá também estimulara linguagem, além de ser um fiel depositário das projeções desse indivíduo”, diz a profissional.
Valentina Brandão é mãe de Bruno, de 5 anos. Ela conta que ele foi diagnosticado aos 3 anos e, apesar de inúmeros tratamentos, tinha muita dificuldade de se relacionar, “até que começou uma terapia com animais e percebi rapidamente uma melhora no comportamento. Tive informações de pessoas que tinham cães de assistência e está sendo uma benção! O cachorro dele é um Pastor Australiano macho que está com 1 ano e daqui a pouco tempo estará pronto para morar com a gente. O Bruno tem apresentado melhoras visíveis a cada dia. A felicidade dele nos dias de treino é emocionante!”, celebra Valentina. Já Liane Sanz Iglesias, mãe de Gregório, de 26 anos, conta que nos breves momentos em que o filho passou com seu cão Boris, ela notou uma preocupação em sempre saber onde ele está. “Ainda não podemos falar de mudanças definitivas devido ao pouco tempo de convívio, mas nossa busca é para que o relacionamento de ambos possa acalmar e diminuir a ansiedade típica do autista. Fora que será muito bom ter um companheiro constante, pois o autista é normalmente muito solitário e queremos que ele tenha a segurança do amigo cão ao seu lado”, aponta Liane.

Nos treinamentos, são ensinados desde comandos básicos até os mais específicos, como acompanhar a pessoa em todos os lugares, avisar sobre um surto de epilepsia e deitar-se debaixo da cabeça da criança, por exemplo. Para o sucesso do treino, é preciso que o adestrador seja paciente, criativo, comprometido, com senso de justiça e observador. “A partir daí, nos debruçamos sobre técnicas de treinamento e conhecimento sobre cães, seus comportamentos, suas necessidades e limitações. Tudo tem que ser bom para o treinador, o cão e a pessoa que irá recebê-lo. O senso de equilíbrio é importante para não super ou subestimar nossos cães nem o autista. Nós aprendemos que tudo que é demais acaba sendo ruim, até proteção em exagero”, afirma. “Para cães que gostam e precisam de atividade, temos treinos mais ativos. Outros já são mais apáticos, então respeitamos também. O fato é que não há uma receita de bolo, mas um protocolo segundo o qual os cães têm que atingir uma pontuação mínima para desenvolver o trabalho.”
PLANOS PARA O FUTURO
A meta inicial de Ronaldo para 2022 era treinar 10 cães para doação, mas, por falta de recursos, não será possível. Apesar de oferecer produtos e serviços diversos, cujo retorno é revertido ao Instituto, o Reddogs ainda está aquém de sua capacidade – em poucos meses de atividade, já são cerca de 40 famílias solicitando os cães da instituição. Vale destacar que preparar um cão com exames, vacinas, alimentação, treinos, socialização, equipamentos etc., tem um custo para o Instituto de cerca de R$ 45 mil a R$ 50 mil. Hoje tudo é custeado por um grupo de menos de cinco pessoas, e o Instituto busca por voluntários, parcerias e doações. “Precisamos de pessoas comprometidas para ajudar na parte de captação e mídias sociais, entre outras coisas”, conclui.
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Contatos: Instituto Reddogs Cães Terapeutas: institutoreddogs.org.br Doações: institutoreddogs.org.br/doar Instagram: @institutoreddogs
Liana Pires Santos www.lianaequoterapia.com.br
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