Como pesquisadora especializada em relações humano-animal e em oferecer suporte para pessoas lidando com o luto de animais de estimação, vi na fotografia uma forma de capturar presença, emoção e conexão

A fotografia começou como um hobby para mim. No entanto, como psicóloga, pesquisadora especializada em relações humano-animal e em oferecer suporte para pessoas lidando com o luto de animais de estimação, vi nisso outra forma de ouvir não só as pessoas, mas também os animais de estimação e o que existe nessa relação que é tão poderosa. Embora a pesquisa me ajude a entender esse vínculo por meio de padrões mensuráveis, a fotografia oferece outra coisa: uma maneira de capturar presença, emoção e conexão, que são os tipos de coisas que muitas vezes são mais sentidas do que ditas.
Um projeto pessoal que se tornou algo a mais
Nos últimos meses, fiz várias sessões de fotos com diferentes cães e tutores em Ontário, no Canadá, e as fotos incluídas neste artigo são o resultado desse trabalho. Outras sessões ainda virão, e possivelmente as próximas serão no Brasil. Ofereço todas as sessões fotográficas gratuitamente e todas as imagens que compartilho aqui são usadas com total consentimento. Esse processo também envolve ouvir todos os tipos de histórias sobre esses laços, o que torna a experiência mais significativa para mim e os tutores. Algo que continuo ouvindo repetidamente é “Eu tenho o melhor cachorro“, e essa frase geralmente vem junto com belas histórias de apoio emocional e resiliência. Vejo essa declaração sobre o “melhor cachorro” como uma forma de expressar o amor percebido nessa relação. Esses cães são diferentes em idade, raça e temperamento, mas o que eles parecem ter em comum é um lugar especial na história de vida de tutores e famílias.

Para alguns tutores, a sessão fotográfica é vista como uma despedida porque o cão está doente ou envelhecendo. Nesse contexto, as fotografias passam a fazer parte de um processo de luto que já se desenrola, e possivelmente uma maneira de lembrar, honrar e se agarrar ao momento. Vejo o cuidado e a ternura na maneira como as pessoas posicionam o cachorro ao lado delas e, ao mesmo tempo, ouço a maneira como elas falam mais devagar ao compartilhar sobre seu relacionamento com o cão.
Para outros, essas sessões são uma forma de celebrar a alegria do dia a dia ou registrar um momento especial em suas vidas. Essas sessões geralmente são animadas e às vezes envolvem jogos, truques específicos e muita diversão. Como minha ideia principal é capturar interações genuínas, há espaço para diferentes ritmos e estilos. Alguns querem ter uma lembrança de como o cão se encosta no peito deles no final do dia. Outros querem mostrar o truque que levou meses para ser ensinado. Para outros, o objetivo é capturar seus filhos se divertindo com o cachorro da família. Esses são mais do que apenas detalhes triviais, pois falam sobre maneiras específicas pelas quais as pessoas interagem com seus cães. Nesse processo, os tutores falam sobre como se ajustaram às necessidades de seus cães e como se apoiam neles. São pequenos rituais de corregulação, que tornam esses momentos únicos e significativos. Os tutores geralmente expressam como recarregam a energia, se reconectam e encontram conforto nos seus cães e, ao compartilhar esses momentos, oferecem pistas sobre o que é significativo para elas na conexão emocional que estabelecem com seus animais de estimação.

Um vínculo único
Como uma professional atuando na área clínica, um dos meus objetivos é entender o que traz estabilidade e significado à vida do cliente, e quando o cão – ou qualquer outro animal de companhia – faz parte da vida das pessoas, é crucial abrir espaço para permitir que as pessoas compartilhem esses momentos que fazem parte dessa base de autorregulação e conforto.
Uma das coisas mais poderosas que observei é que as pessoas não estão apenas procurando belos retratos de seus animais de estimação. Elas querem ser vistas com seus cães de companhia e garantir que a singularidade desse vínculo seja claramente capturada. Em outras palavras, elas querem capturar as emoções associadas a esse relacionamento que fazem esse vínculo ser único e especial, e é isso que torna as sessões tão emocionalmente ricas.

As histórias transbordam amor e conexão: “É assim que ele olha para mim quando estou ansioso”. “Ela só dorme enrolada nas minhas costas.” “Quando ela começou a aprender esse truque, ela estava com tanto medo, mas agora ela confia em mim” – e há muito orgulho em compartilhar momentos desafiadores que foram superados com o trabalho colaborativo. Às vezes, parte da sessão é apenas observar o cão libera energia e observar os detalhes da interação que se desenrola. Essas interações são profundamente significativas e me sinto privilegiada por capturar através de minhas lentes o impacto emocional do vínculo que as pessoas compartilham com seus cães.
Algo essencial que aprendi é que o vínculo entre as pessoas e seus animais de companhia vem de diferentes formas, mas não é apenas algo terno e charmoso. Oferece suporte, companheirismo, oportunidades de autodescoberta e um sentimento de continuidade. Também pode oferecer oportunidades para se conectar com outras pessoas e com elas mesmas. Essas características tornam o vínculo vital e profundamente significativo porque de alguma forma eles dão estrutura e fazem parte da identidade dos tutores.

Por que essa relação realmente importa?
Entender essa conexão entre os tutores e seus animais de estimação, ajuda a acessar uma camada emocional que muitas vezes expande a compreensão que temos dos animais como uma ponte de apoio, algo que a pesquisa já mostra. Além disso, muitas pessoas mostram uma capacidade notável de reconhecer a individualidade de seus animais de companhia e, por meio disso, é possível obter insights poderosos sobre como as pessoas navegam a complexidade emocional de seus relacionamentos.
O que aprendi é que quando um tutor diz: “Este é o melhor cachorro”, o que provavelmente ele está tentando expressar é: “Esse amor moldou quem eu sou”. Ao mesmo tempo, é outra forma de dizer: “O que sinto com ele, não sinto com mais ninguém”. Nesse sentido, não se trata apenas do cachorro, mas principalmente do que ganha vida nas pessoas quando estão com seus cães.
Se isso tocou você…
Este projeto vai se transformar em um e-book gratuito, reunindo uma variedade de fotografias e reflexões sobre diferentes aspectos do vínculo entre pessoas e animais. Se tiver interesse em baixar o e-book quando estiver pronto, é só seguir minha página no Instagram.
Além disso, em outubro de 2025, estarei no Brasil para realizar um novo ensaio fotográfico com famílias e seus cães. A ideia é continuar registrando esses laços únicos e silenciosos que tanto dizem sobre quem somos e como amamos. Vou selecionar de duas a três famílias para participar dessa próxima etapa do projeto.
Agradecemos a colaboração de Renata Roma
Pesquisadora e psicoterapeuta. Estuda o vínculo entre pessoas e animais há mais de 10 anos. Psicóloga de formação, tem experiência com terapia assistida por animais, oferece suporte a tutores enfrentando o luto de um pet e tem diversas publicações internacionais e nacionais na área de saúde mental e interações entre pessoas e animais. Doutora pela Brock University com pós-doutorado pela University of Saskatchewan, no Canadá, dedica-se a entender como esses vínculos influenciam o bem-estar humano e animal.
LinkedIn: renata-roma,
site: renataromaconnections.com ou Instagram: @renataroma.phd



