Genética, experiências de vida e aprendizados ao longo de toda a vida vão ser alguns dos principais fatores

As primeiras semanas de vida do animal são bastante importantes.
Neste momento inicial, ele está descobrindo o mundo ao seu redor e mais propício a assimilar estímulos
Cada cachorro é um mundo particular. Dentro desse ser de quatro patas, existem as mais variadas características, que, quando somadas, o tornam um ser único. Se o seu companheiro peludo é agitado ou tranquilo, brincalhão ou apático, medroso ou seguro, sociável ou introspectivo, tudo isso é determinado por muitos fatores prévios e outros tantos presentes. Alguns destes são imutáveis, mas outros estão em constante desenvolvimento, modificando o comportamento canino até a sua morte.
GENÉTICA
Como saber qual será o comportamento de um cachorro? O passo inicial é olhar para os pais, avós (caso tenha acesso a eles) ou ainda para as características da raça (caso o cão tenha). A base genética do animal é o primeiro fator que começa a construir a sua personalidade. “Quais são as características de um Border Collie? Elas são passadas para os novos animais, de pai para filho, sem que a gente ensine. Essa raça, por exemplo, tem a mania de morder o calcanhar das pessoas por causa do comportamento antigo de tocar rebanhos. Existe uma ancestralidade muito forte”, aponta o adestrador Carlos Sardinha.
De acordo com Carlos, é possível que aquele filhote calmo e equilibrado de uma ninhada continue assim na vida adulta, caso exista um manejo e uma criação adequados. Afinal, a genética é só o começo. Para além dela, é preciso olhar para o indivíduo. O adestrador Leonardo Ogata, fundador da Tudo de Cão, não acredita que a genética seja um fator decisivo. “É a aprendizagem que o cão tem ao longo da vida que vai impactar em como ele vai se comportar em cada situação, buscando sempre aquilo que vai trazer maior vantagem ou então livrá-lo de um desconforto”, explica ele. E o aprendizado começa já em seguida ao nascimento.
SOCIALIZAÇÃO INICIAL
As primeiras semanas de vida do animal são bastante importantes. Este momento inicial, quando ele está descobrindo o mundo ao seu redor e mais propício a assimilar estímulos, é um importante período de desenvolvimento. Até pelo menos os três meses de vida é fundamental que o animal permaneça ao lado da mãe e dos irmãos, explica Carlos Sardinha. “Ele precisa desse tempo para aprender com outros cachorros da sua espécie a ser um cão, e isso está relacionado com o seu bem-estar e sua qualidade de vida”, aponta ele.
Este período pode se estender até além do quinto mês de vida, de acordo com Leonardo Ogata. “Aqueles animais de estimação que não são expostos a muitos estímulos nesse período podem se sentir inseguros ao terem contato com eles no futuro. E, para reagir a esta a insegurança, o cão pode tentar fugir ou atacar. Eu digo que medo e agressividade são irmãos gêmeos”, conta o adestrador da Tudo de Cão. Ele é contrário à ideia de que o cachorro precisa ser exposto ao maior número possível de estímulos nos primeiros meses, em vez disso defende a qualidade desses estímulos. “Muitos só começam a socializar o seu filhote depois do término das vacinas, mas eu já faço isso depois da primeira dose. É possível desde que estejam em locais controlados, emocionalmente estáveis, limpos e seguros, podendo ter outros seres humanos. Não os levo em locais com outros cães, pois há risco de contrair doenças como cinomose e parvovirose”, detalha Leonardo. Em filhotes, é bem comum que o tutor estimule a superexcitação no bebê, através de brincadeiras, mas ele desaconselha, pois o pequeno vai entender essa agitação como algo positivo e comum. “As pessoas gostam de colocar filhotes juntos para que brinquem alucinadamente, quando o ideal é que interajam com animais já adultos, calmos e tranquilos, para que aprendam e levem esse comportamento para a vida adulta.”
CONSTANTE CONSTRUÇÃO
“O comportamento não é algo estático, está sempre em construção”, informa Leonardo. “Não é porque foi feita socialização nos primeiros meses que não é preciso me preocupar com mais nada. Mas, quando ela é feita, damos ferramentas para que ele lide como mundo e facilitamos todo o processo para o cão e para o tutor”, completa. Com ou sem ferramentas, o pet vai continuar aprendendo e moldando o seu comportamento até o fim da vida. Isso significa que não existe uma idade limite para adestrar um cachorro. Segundo Leonardo, o adestramento é um processo prazeroso e divertido para o pet, que vai aprender com as experiências positivas que ele vai vivenciar.
Quanto antes na vida do animal esse adestramento começar, maiores são as chances de resultados positivos. Um cão mais velho que esteja começando a ser adestrado deve ter um aprendizado e uma mudança de comportamento mais lentos. Também há outro lado: um animal que vai sendo treinado ao longo de toda a vida, cuja comunicação com o tutor ou adestrador está profundamente desenvolvida, vai aprender coisas novas muito mais rapidamente. “O adestramento não pode ser encarado como algo destinado a um período da vida. É uma ferramenta de comunicação para toda a vida”, analisa Leonardo.
CADA CÃO É ÚNICO
Com todas as variáveis presentes na formação da personalidade dos cães, cada um deles vai ter um comportamento único que o define e que deve ser respeitado mesmo quando há necessidade de mudanças. “Me comunico de uma forma diferente com cada cão. Tenho uma Border Collie que é insegura e agitada. Então precisei treinar com ela de outra forma, colocando mais atividades físicas em ambientes abertos e seguros, trabalhando sem guia”, exemplifica Leonardo. O adestramento treina o cachorro para que ele se comporte de forma adequada em determinadas situações, mas não muda o pet. Entender tais diferenças é também uma forma de respeitar os pets e proporcionar-lhes mais qualidade de vida.
Agradecemos as participações de

Leonardo Ogata
Adestrador e cofundador da Tudo de Cão. Começou a treinar cães em 2000. Junto com Sara Favinha desenvolveu uma metodologia especialmente desenvolvida para o treinamento de animais, baseada nos princípios e leis de aprendizagem e alicerçada na ciência do comportamento, referência no Brasil em adestramento positivo.
Instagram: @tudodecao

Carlos Sardinha
Apaixonado por cães. Adestrador de cães, atua com soluções comportamentais pet com atendimentos em domicílio e hospedado em Niterói, RJ, e em serviços assistidos com cães, tendo especialidade com crianças no espectro autista e idosos.
Host do podcast Resenha de Cão, no YouTube.
Por Aline Guevara



