Saiba identificar a surdez em cães e se comunicar com um cão deficiente auditivo de forma eficiente

Dom, do casal André e Flávia: aos 4 meses, identificaram a surdez do pet
“Parece que meu cão não me escuta!” Se você se identificou com esta frase, fique atento! Muitos donos, ao tentarem se comunicar com seus cães, se perguntam se o pet possui algum problema auditivo ou se é teimoso mesmo. Saiba que ele pode sim ter algum problema de audição! O casal André e Flávia, de Natividade, RJ, passaram por isso com o Border Collie Dom, que na época tinha 4 meses. “Eles relataram problemas como falta de concentração, comportamentos compulsivos de girar, sustos ao ser acordado e a sensação de que o cão não os ouvia”, compartilha o adestrador Breno Guerra, natural de Tombos, MG, que é um apaixonado por cães, especialmente pela raça Border Collie. Adestrador desde 2017, Breno vinha atuando com adestramento intensivo, onde os cães ficavam hospedados no canil por períodos de 30 a 120 dias para receber treinamento no Centro de Treinamento B12 Border Collie, onde ele é o proprietário. “Isso incluía reabilitação, adestramento básico e avançado, resolução de problemas comportamentais, escola para filhotes, entre outros. Em 2022, recebi a mensagem de André e Flavia e marquei uma visita com o casal para discutir o treinamento e conhecer o Dom. Após alguns minutos de conversa, e com minha experiência com a raça Border Collie, questionei sobre os pais do filhote, pois ele apresentava pelagem blue merle, orelhas internas muito rosadas, olhos azuis e nariz rosado, características que podem indicar um acasalamento inadequado. O casal não tinha informações sobre os pais, o que levantou dúvidas sobre o cruzamento, já que a pelagem merle é uma condição genética que não deve ser cruzada entre si (merle x merle), pois pode resultar em filhotes com problemas de saúde, como surdez, cegueira e anomalias oculares”, diz Breno.
Diante da suspeita de surdez, o filhote ficou no Centro de Treinamento para observação, e Breno realizou testes simples com sons agudos, assobios e simulação de latidos de outros cães para verificar suas reações. “No entanto, nenhum barulho era capaz de chamar sua atenção. Mesmo enquanto dormia, os testes de barulho não o acordavam; ele permanecia em um sono profundo. Além disso, Dom apresentava um comportamento compulsivo de girar em uma mesma direção, algo que nos incomodava muito, pois era perceptível seu incômodo, sua angustia nesta situação. Conversando com o veterinário Dr. Gustavo Luiz (@adestramentodescomplicado), neurologista e comportamentalista canino, ele sugeriu uma possível má formação do labirinto que poderia causar esse comportamento (ficar girando), mais uma vez proveniente de uma suspeita de acasalamento realizado de forma incorreta”, compartilha o adestrador. Após confirmar a surdez do pet, Breno partiu para a solução do problema: como se comunicar com Dom e oferecer liberdade fora de casa, já que ele não nos ouvia?

Dom aprendeu a se comunicar associando os acertos do treino com sinais gestuais que Breno fazia para ele

PRIMEIROS PASSOS
Breno começou o treinamento de obediência básica com Dom, assim como faz com outros cães, usando a ração para induzir movimentos como “se sentar”, recompensando imediatamente após a execução. “No adestramento, normalmente usamos um marcador sonoro para indicar o momento exato em que o cão ‘acerta’, mas no caso de cães surdos, mudamos para linguagem de sinais. Mostrei ao Dom que ao fazer um gesto de ‘joia’ com a mão, ele receberia uma porção de ração, estabelecendo assim um marcador de recompensa”, revela. Com o tempo, quando Dom executava o comando “senta”, Breno marcava com um “joia” e recompensava. Com este método, Dom aprendeu vários comandos, como “senta”, “deita”, subir em plataformas e entrar na caixa, cada um associado a um gesto específico. “Após dominar os comandos básicos, nossa comunicação foi se aprimorando, e Dom demonstrou uma incrível capacidade de leitura corporal. A alimentação era fracionada ao longo do dia para facilitar o treinamento”, aponta.
COMUNICAÇÃO À DISTÂNCIA
Ainda faltava um aspecto importante no adestramento de Dom, que era conseguir comunicar com ele à distância e sem contato visual. “Para isso, utilizamos uma coleira eletrônica, pareando o modo vibrar com a alimentação. Treinamos o Dom para que, ao vibrar a coleira, ele recebesse ração da minha mão, associando o estímulo com algo muito bom. Concluímos essa etapa e, gradualmente, introduzimos distrações e ampliamos os espaços (sempre controlados para evitar fugas), permitindo que ele corresse e brincasse e, quando eu vibrasse a coleira, ele retornava. E era recompensado. Esta ferramenta foi essencial para que pudéssemos proporcionar mais liberdade de uma forma mais segura com uma comunicação mais precisa e assertiva. Com a parte mecânica da comunicação bem estabelecida, também inseri um comando gestual para o comando ‘vem aqui’, por meio da linguagem dos sinais. E assim se formou nossa comunicação, toda vez que eu vibro a coleira, Dom entende que eu estou o chamando, ele irá me procurar e correr até mim”, detalha Breno.

Dom (em cima da caixa) e Bjorn: dois Border surdos adestrados por Breno Guerra
DESAFIOS NA COMUNICAÇÃO
O maior desafio no treinamento de cães surdos, segundo Breno, é aprender a se comunicar por gestos e expressões faciais, que devem ser consistentes para que o cão compreenda o que está sendo pedido. “Após esse processo, chegava o momento de os donos treinarem os comandos e aprenderem a se comunicar com seu cachorro. Essa fase de ‘adestramento’ dos donos é crucial, pois são eles que passarão a vida com o cão. Todo o treinamento deve ser compartilhado, e os comandos gestuais ensinados e reforçados antes do retorno para casa. Com o manejo alimentar bem estabelecido, utilizamos os momentos de alimentação para que os donos praticassem”, diz.
Com o tempo, Breno diz que os próprios donos começam a desenvolver suas maneiras de comunicação, e o cachorro aprendeu a interpretar essas novas leituras, mas o treinamento precisa ser diário. “Com uma rotina que inclua passeios, brincadeiras e interações com pessoas e outros cães, um cãozinho surdo pode levar uma vida normal. No caso de Dom, em apenas 30 dias, conseguimos estabelecer uma comunicação eficaz com os comandos básicos e a introdução do comando ‘vem aqui’ utilizando a coleira eletrônica, mas cada cão tem seu próprio ritmo e necessidades”, comenta o adestrador.
CASO DE SUCESSO
Os donos de Dom se dedicaram tanto ao treinamento que, atualmente, ele faz apresentações em diversos eventos caninos, proporcionando um verdadeiro espetáculo no Dog Show com truques impressionantes, brincadeiras com frisbee e muito mais. “Após esse treinamento, e com a divulgação em nosso perfil profissional B12 Border Collie, atendemos vários outros casos semelhantes, utilizando a mesma metodologia para estabelecer comunicação, todos com resultados incríveis. Um desses casos foi o do cãozinho Bjorn, muito parecido com Dom. Com ele, criamos um grupo no WhatsApp, onde compartilhamos diariamente vídeos de seu treinamento. Vários treinadores do Brasil acompanharam e replicaram para donos de cães surdos, ajudando muitas famílias”, comemora Breno.

Breno Guerra
Fundador do Canil e Centro de Treinamento B12 Border Collie em Tombos, MG, e, sócio proprietário do Centro de Treinamento Casarão dos Cães. Desenvolveu o Projeto B12 Border Collie, curso online voltado para o adestramento de Border Collies.
Também é competidor em provas nacionais de pastoreio e ministra cursos presenciais de adestramento.
Instagram: @b12bordercollie
Por Samia Malas



