Entre culpa e crescimento: o que podemos aprender com o luto de Hamilton por Roscoe

Para muitas pessoas, o pet também é uma presença fundamental em suas vidas e que vale todo o investimento e amor possíveis

Foto: reprodução/www.formula1.com

A notícia de que Lewis Hamilton recentemente perdeu seu bulldog Roscoe foi destaque no mundo todo. Roscoe esteve ao lado do piloto por muitos anos e ocupava um espaço emocional significativo em sua vida. Hamilton declarou que estava “lutando até o final” pela vida do seu amado companheiro. E ele não está sozinho. Para muitas pessoas, o pet também é uma presença fundamental em suas vidas e que vale todo o investimento e amor possíveis.
Na verdade, para milhares de tutores os pets são considerados família, e não um membro familiar distante, mas alguém com quem compartilham pequenos momentos do dia a dia e constroem uma rotina juntos. Isso inclui acordar, ou até ser acordado pelo animal, e compartilhar vários rituais e pequenos momentos cotidianos. Em alguns casos, os tutores até mesmo compartilham a cama com seus pets. Nessa convivência diária, criam-se laços emocionais fortes, por vezes mais intensos do que os estabelecidos com amigos, já que o pet está presente o tempo todo. Nesse sentido, para muitos, o pet é percebido como fonte de amor incondicional e constante.

O que as pesquisas dizem sobre o luto pet?
Pesquisas mostram que, quanto mais forte o vínculo, mais difícil vivenciar a experiência da perda. Um estudo conduzido em 2022 por pesquisadores da Coreia do Sul apontou que o uso de estratégias adaptativas de regulação emocional ajuda a reduzir o sofrimento, enquanto estratégias mal adaptativas podem intensificá-lo.
As estratégias adaptativas referem-se a reconhecer o luto como uma possibilidade de crescimento. Incluem engajar-se em atividades que ajudem a pensar no futuro e a retomar a vida, colocar a experiência em perspectiva, refletir sobre o que foi aprendido no vínculo com o animal e buscar apoio emocional. As estratégias mal adaptativas estão ligadas à ruminação, à tendência de imaginar os piores cenários possíveis, ou à dificuldade de sair de um movimento constante de culpa, seja em relação a si mesmo, seja culpando os outros. Todos esses elementos fazem parte da vivência do luto e ajudam a compreender por que essa experiência pode ser tão intensa e variada entre diferentes pessoas.
Ao mesmo tempo, o apego ansioso está associado a uma maior gravidade do luto. Foi o que descobriram pesquisadores da Austrália em um estudo de 2023, realizado com 496 participantes. Eles também observaram que o apego evitativo pode estar relacionado a uma menor intensidade dessa experiência. Ou seja, a forma como as pessoas se vinculava ao pet em vida influencia diretamente como irão vivenciar a perda. Ainda assim, o luto é sempre uma experiência individual, que depende da história única de cada pessoa e do papel que o animal ocupava em sua vida.
Uma pesquisa realizada no Reino Unido em 2023, baseada em entrevistas com terapeutas especializados em oferecer suporte no luto por pets, destacou o quanto é crucial validar a dor da perda animal no processo terapêutico. Também reforçou a importância de buscar profissionais realmente qualificados nessa área, em vez de simplesmente autointitulados.
Um aspecto que influencia profundamente o processo de luto é como o animal morre. Perdas por eutanásia, por exemplo, podem trazer um sofrimento emocional adicional, frequentemente acompanhado por sentimentos de culpa, como apontado em um estudo de 2025 publicado na ScienceDirect.
Outro estudo, realizado no Reino Unido em 2024, mostrou que o pico do luto costuma ocorrer entre dois e seis meses após a perda, mas pode ressurgir até um ano depois. Além disso, cerca de 20% das pessoas relatam sintomas de luto intenso mesmo após um ano, evidenciando o impacto significativo que essa experiência pode ter na saúde mental.

Formas de continuar o vínculo
Nesse processo, os vínculos contínuos podem ajudar. Essa ideia se refere ao fato de que, mesmo após a perda, o vínculo permanece. Há diversas formas saudáveis de dar continuidade a esse laço: conversar sobre o pet com pessoas próximas, criar rituais, guardar objetos significativos, plantar uma árvore, realizar doações ou trabalho voluntário em prol da causa animal. Para algumas pessoas, pode ser algo simples como acender uma vela e fazer uma prece. Esses gestos simbólicos contribuem para vivenciar esse momento de perda.
Outro fator essencial é o suporte emocional. Pesquisadores da China, em um estudo de 2025, mostraram que quando há validação emocional, o luto é vivenciado de forma mais suportável. Mas quando esse apoio não existe, especialmente em casos de vínculos muito fortes, a experiência tende a ser mais solitária e dolorosa. Por isso, é fundamental reconhecer socialmente o luto por pets.
A sociedade ainda precisa avançar muito no reconhecimento do luto por pets, inclusive com políticas públicas que ofereçam suporte a essa população. O primeiro passo é abrir a conversa e reconhecer que esse luto é real e merece cuidado. Quem está passando por essa experiência merece acolhimento e desenvolvimento de recursos adequados.
Nesse sentido, histórias como a de Lewis Hamilton e Roscoe nos lembram o quanto os vínculos com os animais de estimação são centrais na vida emocional das pessoas e quão importante é validar a experiencia do luto quando um pet morre.

Por Renata Roma

Renata Roma
Pesquisadora e psicoterapeuta. Estuda o vínculo entre pessoas e animais há mais de 10 anos. Psicóloga de formação, tem experiência com terapia assistida por animais, oferece suporte a tutores enfrentando o luto de um pet e tem diversas publicações internacionais e nacionais na área de saúde mental e interações entre pessoas e animais. Doutora pela Brock University com pós-doutorado pela University of Saskatchewan, no Canadá, dedica-se a entender como esses vínculos influenciam o bem-estar humano e animal.
LinkedIn: renata-roma, site: renataromaconnections.com ou Instagram: @renataroma.phd

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