Inseminação artificial: reprodução assistida segura e eficaz

Médico-veterinário Abrahão Vanelli durante procedimento de reprodução por inseminação artificial – Foto: Arquivo pessoal

Técnica permite melhoramento genético, cruzamento de animais geograficamente distantes e também evita doenças

A inseminação artificial em cães já é utilizada há décadas e é bem popular nos Estados Unidos e na Europa, quando comparada ao uso no Brasil, embora o procedimento tenha crescido no país. Ao oferecer uma reprodução assistida segura e eficaz, ela pode ser uma boa alternativa para criadores preocupados em gerar filhotes mais saudáveis e com a genética desejável.

Como é realizada?

A primeira inseminação artificial cientificamente documentada foi em cães, no século XVIII, na Itália, com uso de sêmen fresco, recém-coletado. A partir da década de 1980, o procedimento se popularizou ao redor do mundo. A técnica consiste em inserir o sêmen do cachorro macho no interior do sistema reprodutor da fêmea, ou na sua vagina ou no útero, como explica o Prof. Marcelo Rezende Luz, de Belo Horizonte, professor da Escola de Veterinária da UFMG, presidente do Colégio Brasileiro de Reprodução Animal (CBRA) e coautor do livro Reprodução de Cães.

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Ele conta que há duas formas de utilizar o sêmen no procedimento. “O sêmen é coletado de um cão reprodutor e pode ser usado logo depois – neste caso, o sêmen fresco –, ou após o processamento de criopreservação (conservação em baixas temperaturas), no qual o sêmen é refrigerado ou congelado. Após a coleta, o sêmen deve ser analisado, macro e microscopicamente, por um veterinário, para atestar a sua qualidade”, explica Marcelo. Ainda de acordo com ele, esta é uma etapa muito importante da técnica, pois o material coletado precisa possuir características mínimas desejáveis, como a presença de espermatozoides em quantidade suficiente para a fertilização, e padrão de movimentação e padrão morfológico dentro do estabelecido. “Além disso, o sêmen não deve possuir contaminantes, sujidades, sangue, esmegma ou pus, o que é detectado no microscópio. O uso de um sêmen de má qualidade, ou que não foi analisado, pode não só impedir a fertilização, mas gerar ninhadas pequenas ou até mesmo causar infecção no sistema reprodutor da cadela”, alerta. Por isso, todo o processo tem que ser realizado com muito cuidado e por um profissional da área.

Com a análise do conteúdo intravaginal da cadela, é possível determinar qual é o seu período no ciclo fértil e qual é o momento de realizar a inseminação artificial – Fotos: Arquivo pessoal

Indicações e benefícios

A técnica da inseminação pode representar uma solução segura para a reprodução canina em diversos casos que poderiam apresentar algum empecilho ou dificuldade em se executar o acasalamento natural. “Por exemplo, quando o macho tem baixa libido, nos casos de fêmeas dominantes, em casos de padreador e matriz agressivos, ou quando macho e fêmea residem em locais geograficamente distantes”, descreve Marcelo. Portanto, em muitas situações, a inseminação artificial pode representar uma reprodução mais segura para animais, evitando, inclusive, possíveis doenças sexualmente transmissíveis. 

O médico-veterinário Abrahão Vanelli, de Mogi Mirim, SP, conta que todas as raças de cães podem se beneficiar da inseminação, mas para algumas ela pode ser ainda mais indicada. “Existem raças mais dependentes dessa técnica, como o Buldogue, Pug e outras raças braquicefálicas. Isso porque os cães dessas raças têm dificuldade de realizar a monta natural. Também seria indicada nos casos em que o macho é menor em tamanho do que a fêmea”, completa. Abrahão ainda enfatiza que a técnica é muito indicada e procurada também para animais de alto valor zootécnico, ou seja, pets que são destaque de uma raça ou categoria, e que são altamente buscados para procriação. Entre outras vantagens do processo estão a fertilização de mais de uma fêmea com o mesmo sêmen coletado e até tratamento desse material, quando há necessidade.

Embriões caninos com aproximadamente 12 a 15 dias de desenvolvimento

Técnicas variadas

A inseminação artificial pode ser executada a partir do sêmen fresco do macho reprodutor, ou com o material refrigerado ou congelado. No uso do sêmen fresco, a inseminação indicada é a intravaginal. “Tanto a cadela quanto o macho, quando o procedimento é feito corretamente, não sentem dor nem desconforto. A técnica mais utilizada é a intravaginal e nela não precisa de sedação”, explica Abrahão, que, recentemente, foi para os Estados Unidos conhecer novas técnicas de reprodução e criopreservação. 

De acordo com Marcelo, quando é preciso submeter o sêmen em refrigeração, ele é armazenado sob temperatura entre 2-8 °C, em geladeira, contêineres próprios ou mesmo caixas de isopor, e permanece viável por poucos dias. “Dessa forma, normalmente ele é coletado e processado quando a cadela já está no cio”, aponta. 

Já o sêmen congelado é mantido sob -196 °C, especificamente em botijões criogênicos, e permanece viável por anos, ou até indefinidamente. “Geralmente ele é mantido em bancos de sêmen canino e descongelado para uso”, revela o presidente do CBRA. “Na inseminação com o uso de sêmen congelado, este deve ser depositado no interior do útero ou através do auxílio de um endoscópio, que permite acessar o útero via canal vaginal, ou com cirurgia, com a cadela anestesiada”, explica. Marcelo ainda frisa que é importante considerar a qualidade do sêmen antes de ser coletado e congelado. É recomendado que o material seja coletado do animal enquanto ele ainda é jovem, pois com o avançar da idade a qualidade do sêmen tende a diminuir. 

Livro Reprodução de Cães, em que Prof. Marcelo Rezende Luz é coautor – Foto: Reprodução

Segurança e eficácia

Uma das principais características da técnica por inseminação artificial na cinofilia é a segurança do processo de reprodução. Para Abrahão, no entanto, é preciso garantir que ela seja realizada por profissionais competentes. “O procedimento, desde que feito por profissional veterinário especializado, com material descartável, e em condições favoráveis para que não ocorram infecções, é totalmente seguro. Muito mais seguro que a monta natural. Lembrando que, durante o processo, o material genético do macho é analisado para que possamos verificar se não há anormalidades e a fêmea também é examinada clinicamente”, revela. “Muitos criadores optam por fazer o procediemnto no próprio canil”, aponta Abrahão. Contudo, quando o procedimento é realizado no canil, Marcelo alerta: “É fundamental que o canil tenha um ótimo manejo sanitário e nutricional. Isso se faz importante para garantir ótimos índices reprodutivos, porque de nada adianta investir numa técnica avançada e ter perdas reprodutivas relacionadas a animais doentes, abortamentos, distúrbios nutricionais, entre outros. Quanto maior o investimento na inseminação artificial, ou seja, uso de sêmen refrigerado ou congelado e congelação de sêmen de seus reprodutores, mais importante se tornam os bons manejos”. 

Quando o casal de cães reprodutores é jovem e fértil, e a inseminação artificial com sêmen fresco ou refrigerado é realizada, a taxa média de fertilização é de 85%, muito similar à porcentagem em um acasalamento natural. Já quando o sêmen é congelado, a taxa de sucesso no procedimento cai para uma média entre 50% a 80%. “Neste caso é preciso fazer um monitoramento e detecção da ovulação da cadela por meio de exames específicos, e a inseminação deve ocorrer no momento mais propício para atingirmos as maiores porcentagens de fertilização”, esclarece Marcelo.

Cadela Bernese amamentando – Foto: Arquivo pessoal

Acessibilidade

Abrahão, que também é criador e realiza a técnica de inseminação artificial em seus cães, conta que o preço do procedimento pode variar de R$ 300 a 1.000, dependendo do tamanho dos pets, da raça e também da localidade. “Também varia de acordo com a capacitação do profissional também. Quanto mais qualificado, maior o valor”, aponta.

Apesar do crescimento da técnica no Brasil, ela é muito mais utilizada no exterior, em lugares como nos Estados Unidos e em alguns países europeus. Nesses locais estão estabelecidos muitos laboratórios e centros de reprodução canina especializados na técnica. “Existem bancos de sêmen e utiliza-se bastante a inseminação com o sêmen refrigerado e congelado. Ocorre intercâmbio intenso entre países, especialmente na Europa. Já no Brasil, as inseminações com sêmen refrigerado ou congelado ainda são pouco utilizadas, e na maioria das vezes utiliza-se sêmen fresco”, conclui Marcelo, deixando claro que a inseminação artificial no Brasil ainda tem muito a crescer em volume: “Aqui no país a técnica já está totalmente dominada, mas temos a crescer em quantidade, e especialmente no uso de sêmen refrigerado e congelado”.


Por: Aline Guevara

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