Por que a violência contra animais nos indigna, mas nem sempre resulta em mudanças

Na maioria dessas situações o sentimento de revolta não se transforma em movimentos efetivos que contribuam para mudanças estruturais

Foto: reprodução

O caso do cão comunitário Orelha tem causado uma indignação muito grande em diversas camadas da sociedade, além de ter ganhado cobertura internacional. De acordo com denúncias, quatro adolescentes estariam envolvidos no episódio que resultou na morte do Orelha.

Sem entrar em detalhes sobre este ato cruel alguns podem se perguntar: mas afinal, por que ficamos tão impressionados e indignados com esse caso e outros similares?

Como uma pesquisadora que vem estudando o vínculo entre humanos e animais por mais de uma década, casos como esse sempre me fazem parar e refletir. Não apenas no ato em si, mas também sobre o que nossa reação coletiva revela sobre empatia e o lugar que os animais ocupam nas nossas vidas.

Ao mesmo tempo me pergunto por que mesmo diante de tamanha indignação ainda estamos tão distantes de uma realidade na qual existam mecanismos mais claros não apenas de punição, mas sobretudo de proteção aos animais.

Por que ficamos indignados?

Vários pesquisadores ao longo das últimas décadas têm feito a mesma pergunta e alguns fatores parecem ter um impacto importante na forma como reagimos a tais atos de violência.

Empatia por seres vulneráveis ativa reações emocionais fortes: os animais, principalmente os domésticos, de acordo com uma pesquisa publicada em 2023 na Frontiers in Psychology tendem a ativar reações empáticas intensas. Isso se deve parcialmente à percepção de que são seres vulneráveis com os quais compartilhamos várias características. Muitas pessoas reconhecem a capacidade de sentir e pensar dos animais, aumentando a sensação de conexão emocional e empatia. Esse reconhecimento intensifica reações empáticas e o desejo de protegê-los.

Crueldade contra animais tem sido associadas com outras formas de violência: outro fator pode estar ligado ao crescente número de pesquisas as quais apontam uma ligação forte entre violência contra animais e violência interpessoal, violência doméstica e outras formas de violência. Um artigo publicado em 2020 no International Journal of Environmental Research and Public Health, por exemplo, destaca uma ocorrência concomitante de abuso contra animais e violência doméstica. Este não é o único estudo apontando nessa direção. O reconhecimento desse link pode ter um impacto nas nossas reações emocionais diante de casos de abuso animal pois tais eventos podem ser percebidos como uma ameaça mais ampla. Nesse sentido, não é apenas empatia pelo animal, mas possivelmente uma leitura de risco social que acende um alerta interno.

Animais são família: para um número crescente de pessoas, longe de serem simples animais, estamos falando de membros da família. Um levantamento recente com tutores nos Estados Unidos revelou que para 97% deles os pets são membros da família. Esses números são semelhantes em outras partes do mundo. Nesse cenário, uma hipótese é que atos de crueldade contra um animal doméstico possivelmente ativam um senso de ameaça muito próximo. É como se esse tipo de violência ativasse a percepção de que algo preciosos e familiar foi brutalmente ferido ou destruído. Isso, na minha perspectiva pode gerar uma percepção de ameaça a algo extremamente valioso em nossas vidas.

Por que então nossa indignação muitas vezes não vira ação?

Por outro lado, vivemos em uma sociedade onde relações entre humanos são privilegiadas e, em muitos lugares do mundo, os animais domésticos ainda são vistos como posse. Além disso, existe uma distância entre indignação e ações coletivas organizadas. Às vezes, até existem ações, mas elas são isoladas ou envolvem disputas de poder.

O resultado é que na maioria dessas situações o sentimento de revolta não se transforma em movimentos efetivos que contribuam para mudanças estruturais.

Além disso, para algumas pessoas, esses casos são tão chocantes que até ler sobre o assunto é um gatilho muito forte. Portanto, passa a ser um tópico evitado, não por frieza emocional, mas pela dificuldade de lidar com a dor de olhar para esses casos de perto.

Somado a isso, mudanças estruturais levam tempo mesmo com pressão social, e particularmente quando existem obstáculos práticos como falta de perícia veterinária acessível e padronizada, infelizmente em muitos desses casos a indignação não se transforma em mudanças significativas.

Do impacto à ação

Como discutimos acima as pesquisas mostram uma ligação forte entre abuso animal e outras formas de violência. Embora esse seja um argumento importante para revermos a forma como lidamos institucionalmente com casos de violência animal, esse não é o único motivo para a mobilização. Independente de como esse tipo de violência nos atinja diretamente, o animal merece proteção por si mesmo. Espero que mais que uma indignação momentânea, a morte brutal do Orelha seja uma alerta que se traduza em mudanças concretas na legislação de proteção aos animais, na atuação coordenada de profissionais da saúde humana e animal e na forma como os animais são percebidos na nossa sociedade.

Foto: divulgação

Renata Roma
Pesquisadora e psicoterapeuta. Estuda o vínculo entre pessoas e animais há mais de 10 anos. Psicóloga de formação, tem experiência com terapia assistida por animais, oferece suporte a tutores enfrentando o luto de um pet e tem diversas publicações internacionais e nacionais na área de saúde mental e interações entre pessoas e animais. Doutora pela Brock University com pós-doutorado pela University of Saskatchewan, no Canadá.

LinkedIn: renata-roma, site: renataromaconnections.com ou Instagram: @renataroma.phd

Compartilhe essa notícia!