10 conselhos para escolher um bom adestrador

Te ajudamos na difícil missão de selecionar o profissional que vai te guiar na jornada de educar e sociabilizar o seu pet

Foto: dusanpetkovic/iStock

Na Era das mídias sociais recebemos uma infinidade de dicas e “ensinamentos” sobre adestramento vindos de perfis de adestradores do Brasil todo, e até do exterior. Porém, como saber se um adestrador é realmente competente e vai entregar um bom trabalho? Será que número de curtidas e seguidores são termômetros para avaliar a qualidade do profissional? “No mundo digital tudo é aceito como verdade, não há um filtro de qualidade. O que ganha mais curtidas muitas vezes não é o profissional mais bem informado ou o que estuda mais o tema, e sim, o que tem mais estratégias para atrair o público. Isso não quer dizer que não existam bons profissionais que sejam influentes no meio digital, apenas que esse não é um bom parâmetro de escolha”, aponta a Dra. Rute Albuquerque, da Behavet Medicina Veterinária Comportamental, de São Paulo, SP.
Para Ernesto Uszko da Silva, fundador da Universidade Cão, de São Paulo, um dos maiores erros atuais é confundir visibilidade com competência. “Curtidas, seguidores e vídeos virais mostram alcance, não necessariamente qualidade técnica. No adestramento, isso é especialmente perigoso, porque um método errado pode até ‘funcionar’ em um vídeo curto, mas gerar medo, estresse ou agressividade no médio prazo. Já vi profissionais extremamente competentes que quase não aparecem nas redes. Por outro lado, já vi perfis enormes divulgando práticas ultrapassadas. O mundo digital é uma vitrine, não um selo de qualidade. Avaliar um profissional exige que se tenha um olhar além da tela e entender como ele trabalha, quais resultados entrega e quais princípios segue”, acrescenta Ernesto.
A adestradora comportamentalista Fatima Neves, sócia-fundadora da escola Qualipatas, de São Paulo, diz que nem sempre o trabalho bem-feito é instagramável. “Além disso, existem muitos mitos, conceitos desatualizados e interpretações humanizadas que chamam muito a atenção das pessoas comuns, são fofos, mas não são necessariamente verdades fundamentadas”, opina.
A seguir, vamos às dicas dos profissionais para a escolha do melhor profissional.

1. QUAL MÉTODO O PROFISSIONAL USA?
Rute destaca que existem vários métodos de adestramento no Brasil e no mundo, e uma forma prática de classificação é a partir do uso de punições e reforços do comportamento. “Seguindo isso, podemos dividir o adestramento em: aquele que é baseado em reforços positivos (foca em ensinar e recompensar o comportamento desejado, enquanto redireciona o comportamento indesejado, dessensibiliza ou, quando possível, evita os gatilhos para o comportamento problema), baseado em punição positiva (foca em punir o comportamento indesejado usando um estímulo aversivo, muitas vezes simulando a situação problema para poder punir o comportamento); ou misto (que usa tanto reforços positivos quanto punições positivas como base). O adestramento baseado em reforços positivos, conhecido popularmente como adestramento positivo, tem crescido muito nas últimas décadas devido às novas pesquisas e descobertas sobre a organização social canina e os efeitos prejudiciais do uso de estímulos aversivos para a saúde física e emocional dos animais e para a relação humano-animal, e ao efeito mais duradouro do ensino baseado em reforços positivos, que evita estresse e ansiedade desnecessários e contribui para a construção de um vínculo seguro entre os animais e seus responsáveis”, detalha Rute.
Ainda segundo ela, o tipo de adestramento utilizado é um divisor de águas na hora de escolher o profissional.
Ernesto e Fatima concordam que o método mais aceito no Brasil – e no mundo – é o adestramento positivo, fundamentado no behaviorismo. “Na prática, isso significa ensinar o cão a fazer escolhas melhores, ao invés de puni-lo por errar. Esse modelo é amplamente adotado em países como Estados Unidos, Canadá e boa parte da Europa, e vem crescendo de forma consistente no Brasil”, aponta Ernesto, que diz ter formado mais de 800 adestradores com esta metodologia na Universidade Cão. “O mundo está caminhando para um adestramento mais ético, eficiente e sustentável – e o Brasil faz parte desse movimento”, complementa. “O adestramento positivo é o método com maior número de estudos e pesquisas que comprovam sua eficiência e eficácia. Entre profissionais atualizados, é o mais utilizado”, acrescenta Fatima.

2. AVALIE O CURRÍCULO
Como o trabalho de adestrador não é regulamentado no Brasil, Rute aconselha aos responsáveis que pesquisem sobre a trajetória do profissional que querem trabalhar. “Qualquer um que ler um livro ou fazer um curso de final de semana pode se nomear como adestrador. Por isso, é de extrema importância ter um bom filtro para contratar um profissional. Ter cursos e pós-graduação em comportamento animal diz muito a favor, participar frequentemente de eventos na área de comportamento animal também é um bom indicador”, aconselha. Fatima corrobora com os seguintes questionamentos que podem ser feitos ao adestrador: “ele se atualiza, frequentando cursos, seminários, simpósios e similares? Essas atualizações são sobre quais fundamentações da ciência?”

3. ENTENDA O PROCESSO
A primeira pergunta que você deve fazer ao adestrador não é “quantos seguidores você tem?”, mas “como você trabalha?”, aponta Ernesto. “Um bom adestrador explica o processo, adapta o treino ao cão e à família e não promete soluções milagrosas”, diz.

4. FUJA DE FERRAMENTAS “AVERSIVAS”
Os adestradores entrevistados alertam que o bom profissional não faz uso de ferramentas “aversivas” ou que conduzam a forçamento ou coerção para se atingir o comportamento desejado, como enforcador, guia unificada, colares de garra, coleiras eletrônicas, borrifadores de água, objetos para fazer barulho e similares. “Qualquer ferramenta que funcione pelo medo, dor ou intimidação deve ser evitada. Mais do que o equipamento, o problema é a mentalidade por trás do uso. Um bom adestrador não precisa impor controle – ele constrói cooperação. Posturas autoritárias, gritos e constrangimento não ensinam; apenas reprimem. O futuro do adestramento está na ciência, no respeito e na prática responsável. E isso já não é tendência – é realidade”, acrescenta Ernesto.
“Ações coercitivas tais como cutucões, puxões, empurrões, atitudes rudes, gritos, ameaças, em que o cão se sinta emocionalmente ameaçado, não devem ser utilizadas. A contenção, necessária inclusive para a segurança do animal deve ser ensinada de maneira natural, onde o animal seja conduzido a considerar satisfatório para si atingir o comportamento desejado por seu treinador e seu responsável”, explica Fatima.
“Existe um grupo atualmente no Brasil chamado Indicação Positiva (indicacaopositiva.com.br), em que estão vinculados apenas profissionais verificados e que usam o adestramento positivo”, indica a médica-veterinária comportamentalista.

5. AJUDA PERSONALIZADA
Rute também aponta que um bom adestrador vai programar as aulas e os próximos passos para cada aluno conforme o que precisa ser trabalhado. “O bom profissional terá um diálogo aberto com você e será franco sobre as características e limitações do animal e o que pode ser esperado do adestramento, não prometendo resultados milagroso em pouco tempo. Além disso, ele vai reconhecer as próprias limitações e te indicar que busque ajuda especializada caso perceba que há algo acontecendo com o animal que fuja do seu conhecimento”, detalha Rute.

6. FAMÍLIA DEVE PARTICIPAR
Um grande sinal de alerta é quando o profissional exige treinar o cão sozinho, aponta Fatima. “O animal deve ser capacitado a se comunicar com a sua família não apenas com o treinador. Se o trabalho for desenvolvido adequadamente não há nenhum motivo que justifique o não acompanhamento do mesmo pelos responsáveis”, diz. Rute concorda, pois, embora o pet aprenda muito nas aulas, no restante do tempo, que é muito maior, ele estará também aprendendo com a família, que precisa saber o que fazer e como lidar com o animal. “Um treino bem conduzido gera engajamento. O responsável participa do adestramento, o cão erra, tenta de novo e aprende”, enfatiza Ernesto.

7. RESPEITO AO CÃO
Outro parâmetro importante é a postura ética, aponta Ernesto. “O adestrador deve respeitar o ritmo do cão, trabalhar com clareza e envolver o responsável no processo. Bons profissionais não vendem atalhos – vendem transformação sustentável”, explica o adestrador, que ainda ressalta: “quando formamos adestradores, reforçamos sempre: aprendizado verdadeiro acontece quando o cão está emocionalmente seguro. Se o cão só responde por medo ou trava diante do adestrador, não é treinamento – é contenção emocional. E isso cobra um preço caro depois”.
Rute enfatiza que um bom adestrador vai buscar manter o animal motivado durante a aula, fazendo pausas, mudando o estímulo reforçador ou a técnica utilizada sempre que necessário. “Existem sinais de estresse claros que eles expressam quando os cães não estão confortáveis com a situação, e se o seu pet emite esses sinais com frequência durante o adestramento, é um indicativo de que a experiência não está sendo legal para ele e que é necessário mudar de abordagem. São eles: virar a cabeça para o outro lado; virar-se de costas; olhar de lado, mostrando a parte branca dos olhos; lamber o focinho, sem a presença de alimento; levantar uma das patas dianteiras; manter as orelhas para trás; bocejar; ficar congelado, imóvel; chacoalhar o corpo, sem estar molhado”, lista Rute. Já Ernesto, acrescenta outros sinais de desconforto: “tremores, cauda baixa constante e tentativa de evitar o treino”. E Fatima ainda ressalta que muitos sinais de estresse não são usuais e adequadamente observados por nós. “Por questões evolutivas e de preservação, muitos pets suprimem os sinais mais evidentes, emitindo uma sinalização mais sutil. Animal estressado tem baixo poder de retenção do aprendizado”, alerta.

8. MAIS DO QUE ENSINAR TRUQUES
Ensinar novos comportamentos é super importante, diz Rute, pois é o que cria um repertório comportamental para ser usado depois, ao lidar com situações desafiadoras ou problemáticas. “Ensinar novos comportamentos ou truques também tem um valorem si (desde que o processo seja agradável para o cão), já que com isso ele terá um estímulo cognitivo que, muitas vezes, falta para cães que vivem entediados dentro de casa. Porém, esse é só o começo do trabalho de um adestrador, que precisa saber como e quando usar cada um desses comportamentos. É necessário que saiba aplicar isso à rotina da família e do pet e ensinar aos responsáveis como e quando utilizar cada um deles, para que lidem com os desafios que o cão convive na sociedade humana”, descreve Rute. Fatima acrescenta que o trabalho comportamental pode ser bastante amplo. “A meu ver a principal função do treinador/comportamentalista é solucionar a equação entre as necessidades da espécie canina x necessidades e possibilidades da família humana. Os comandos ou dicas servem para orientar o cão tanto quanto comportamentos aceitáveis, como para facilitar a comunicação com os responsáveis, fundamental para a boa convivência. Devemos levar em conta que são duas espécies diferentes, com linguagem específica e necessidades próprias, coabitando, idealmente de forma pacífica e organizada. Nem sempre a necessidade ou vontade do responsável é algo de fácil assimilação pelo animal. Muitas questões comportamentais podem ser ajustadas com um manejo adequado, em que as necessidades básicas da outra espécie possam ser atendidas, gerando maior bem-estar”, ensina Fatima.
Ernesto acrescenta que muita gente acredita que o adestrador “conserta” o cão, mas o verdadeiro trabalho é educar a relação entre cão e o responsável. “A maior transformação acontece quando o responsável entende o comportamento, muda rotinas e aprende a se comunicar melhor. E posso afirmar: quando o tutor muda, o cão muda junto”, opina.

9. BUSQUE POR REFERÊNCIAS
“Ainda hoje, a melhor divulgação de trabalho, é o cliente satisfeito”, destaca Fatima. “Referências reais são fundamentais: converse com antigos clientes, observe resultados no dia a dia e veja se o profissional tem formação consistente”, acrescenta Ernesto. Fatima também aconselha que se observe atentamente os perfis destes adestradores, fazendo os seguintes questionamentos: “nas suas postagens, os cães apresentam sinais de incômodo, de estresse ou estão relaxados? Pode ser observada alguma utilização de força ou coação? O que se observa dos seguidores desse profissional, que também são profissionais, ou seja, como é o grupo de profissionais com os quais ele se relaciona? Que tipo de outras referências se tem do profissional além das redes sociais?”

10. AVALIE A EXPERIÊNCIA
Segundo Ernesto, um bom trabalho gera progresso visível e bem-estar. “O cão aprende, mas continua curioso, confiante e seguro. Quando isso não acontece, é preciso atenção. Sinais de alerta incluem promessas rápidas demais, uso de medo como ferramenta aversiva e falta de explicação sobre o que está sendo feito. Se você não entende o processo, algo está errado. Na prática, vimos milhares de casos em que cães chegaram com problemas agravados por métodos inadequados. O adestramento correto não silencia o comportamento — ele resolve a causa. Se o cão parece ‘obediente’, mas está apático ou tenso, o custo pode estar alto demais”, ensina.

Agradecimentos:


Ernesto Uszko da Silva
Formado em Administração de Empresas, com pós-graduação em Neurociência e Comportamento Animal, é fundador da Universidade Cão, instituição dedicada à formação de adestradores comportamentalistas com base no adestramento positivo, no behaviorismo e em evidências científicas

Fatima M. C. Neves
Psicóloga pós-graduada em comportamento animal. Adestradora comportamentalista desde 2003. Sócia da escola Flash Cão (Jundiaí), 2005-2020; sócia-fundadora da escola Qualipatas – cursos de capacitação, workshops, palestras e mentoria para profissionais de comportamento e setor Pet Service. Co-fundadora do INATAA (2008)

Dra. Rute Albuquerque
Médica-veterinária pós-graduada em Etologia Clínica, professora de comportamento animal em cursos e pós-graduações nacionais, palestrante em eventos nacionais e internacionais, com atendimento focado em clínica comportamental desde 2014, e fundadora da BEHAVET – Medicina Veterinária Comportamental

Por Samia Malas

Compartilhe essa notícia!