Australian Cattle Dog: o que é preciso para fazê-lo feliz?

De porte médio, a altura do Cattle Dog típico vai de 46 a 51 cm para machos e de 43 a 48 cm para fêmeas – Cão: Onix / Canil Sentinela Farrapo

Ainda que rústico, esse cão exige manejo correto para garantir seu bem-estar

Criadora Narelle Hammond em exposição – Foto: Arquivo do canil Kombinalong/Cão: Kombinalong Super “K”

Eis uma raça canina única. “O Australian Cattle Dog se originou de um cruzamento entre o Dingo, o cão selvagem australiano, e um Northumberland Cur, raça inglesa hoje já extinta”, relata a australiana Narelle Hammond, do canil Kombinalong, autora de um estudo sobre a raça. “Esse acasalamento foi realizado em 1832, pelo pastor Thomas Simpson Hall, cuja propriedade da família ficava em New South Wales, na Austrália. Eles trabalhavam com grandes rebanhos de gado e precisavam de cães para arrebanhar”, acrescenta Narelle, que conclui: “mesmo hoje, o Cattle Dog deve se assemelhar a um Dingo pequeno e robusto, nas colorações azul e vermelha”.

Criadora Maria Eduarda Dode com dois Australian Cattle Dogs da cor azul mosqueada – Foto: Arquivo do canil Sentinela Farrapo

Quase 200 anos depois de sua formação, o Australian Cattle Dog (Boiadeiro Australiano) participa cada vez mais da rotina nacional. Tanto que, em 2020, 869 exemplares da raça receberam pedigrees da Confederação Brasileira de Cinofilia, o maior número já obtido desde o início da criação do Cattle Dog por aqui, em 1996. Tal quantidade rendeu ao Boiadeiro Australiano a 30ª posição no ranking de registros da entidade, entre cerca de 170 raças e variedades. “São cães que caíram no gosto da nossa população. Eles gostam de ir à praia, praticar exercício, estar junto na hora do churrasco, além de serem um ótimo suporte nas atividades pecuárias”, afirma Maria Eduarda Dode, do canil Sentinela Farrapo, de Pelotas, RS.

 

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“Apesar de ser uma raça extremamente versátil, sua criação precisa ser direcionada, acima de tudo, para gerar um cão com temperamento para lida de gado”, comenta José Otávio Galvão, do canil Australian Outback, de Lorena, SP. Além desse e de outros aspectos que envolvem a criação, o novo proprietário particular desses mais de 800 Cattle Dogs também precisa saber manejá-los corretamente. 

PARA SER FELIZ

Eis alguns quesitos básicos para a felicidade do Cattle Dog: “ser amado, cuidado e respeitado, assim como contar com alimentação e água de qualidade”, diz Joaquim Dode, pai de Maria Eduarda e sócio no canil Sentinela Farrapo. Além disso, ele explica que, ao se adquirir um exemplar da raça, deve-se ter em mente a importância de contar com os serviços de um veterinário que acompanhe seu desenvolvimento, mantenha o controle de endo e ectoparasitas em dia e efetue as imunizações segundo os calendários adequados.

Garantir a segurança do filhote do Australian Cattle Dog é responsabilidade dos tutores. “Em espaços públicos com risco de acidentes, recomendo o uso de guia, e, em casa, ele deve contar com um ambiente protegido e confortável”, diz Joaquim, que acrescenta: “o piso dos locais frequentados por ele deve fornecer atrito suficiente para promover passadas firmes e estáveis – os escorregadios são desaconselhados”. Ele indica cimento, terra, areia, brita, grama e piso frio antiderrapante previamente aprovado. “Realmente deve-se dar preferência a um tipo de piso mais áspero e evitar os muito lisos, como os revestidos por azulejos”, corrobora José Otávio.

O Cattle Dog típico é realmente bom na tarefa de empurrar o gado, em virtude de sua força e vigor – Foto: Arquivo do canil Sentinela Farrapo

A alimentação deve ser adequada às demandas de atividade e fase de crescimento, podendo ser natural ou por meio de ração de boa qualidade, como as superpremium. “No nosso canil, a alimentação dos Cattle Dogs é feita de acordo com a faixa etária do exemplar”, conta Joaquim. “A ração para filhote eu ofereço de três a quatro vezes por dia, e a de adulto, uma a duas vezes diariamente”, comenta José Otávio.

Práticas físicas são bem-vindas: o Cattle Dog gosta de exercícios diários para manter ativos tanto o físico quanto a mente. “Esses cães gostam de ser estimulados a resolver problemas e participar das rotinas. São realmente muito inteligentes e aprendem rápido”, afirma Joaquim. “Para o Australian Cattle Dog, a melhor das atividades é passar o tempo com seu tutor, pelo menos uma hora pela manhã e à noite, correndo, brincando de trazer bolas lançadas, entre outros”, explica Narelle. “Essa raça é muito focada no trabalho e, então, é importante oferecer atividades físicas para ela queimar sua energia, como passeios diários de cerca de uma hora”, comenta José Otávio.

As chances de manter Cattle Dogs machos juntos aumentam quando os cães moram em áreas amplas – Foto: Arquivo do canil Sentinela Farrapo

O Boiadeiro Australiano é ativo, mas não incontrolável. “O Cattle Dog gosta de agito e interação, mas também adaptou-se muito rapidamente aos novos tempos e a diferentes estilos de vida”, diz Joaquim. Ele acrescenta: “pela minha experiência e convivência, o considero como de atividade moderada a alta. Há raças bem mais sedentárias e outras muito mais agitadas”. E conclui: “vários exemplares nascidos em meu canil se inseriram plenamente em famílias com crianças, pessoas idosas ou atletas, vivendo no campo ou em grandes cidades”.

O Cattle Dog gosta de estar com as pessoas da casa. E não é incomum que eleja uma pessoa preferida, com a qual estabelece fortes vínculos afetivos. “Considero a cumplicidade e afetividade da raça Australian Cattle Dog como algo único”, comenta Joaquim.

De tão dedicado ao seu tutor e à família, esse cão executa até o trabalho de guardião. “Ele daria a vida para protegê-los. Não é gentil com estranhos ou outros cães com os quais não tenha crescido junto”, comenta Narelle. “O Australian Cattle Dog realmente faz a guarda e mantém estranhos distantes, graças ao seu forte instinto protetor”, confirma Joaquim.

Não são poucos os que afirmam que os Cattle Dogs são únicos em cumplicidade e afetividade com o dono – Foto: Arquivo do canil Australian Outback/Pessoa: Giovanna, filha do criador José Otávio

Cattle Dogs com acesso a áreas externas, como aqueles com rotinas de campo, se sujam mais facilmente. Mas nem para eles os banhos são grande exigência – esse cão tem, naturalmente, pouco cheiro. “Uma ou duas vezes por mês pode ser suficiente, inclusive para exemplares mantidos apenas como pets dentro de casa, de convivência mais próxima com seus proprietários”, diz Joaquim. Por ter subpelo denso, o Cattle Dog passa por uma queda relativamente intensa de pelo e, assim, precisa de escovações regulares. “Pelo menos duas vezes por semana”, indica José Otávio. Tais práticas evitam que fios mortos se espalhem pela casa e ajudam esse cão a manter a charmosa aparência prateada dos pelos mais longos. “Já a cor da base pode ser vermelha salpicada, azul salpicada ou azul: preta geralmente acompanhada de tan, tonalidade similar ao castanho”, diz  Joaquim. “Não existe nenhuma outra raça pura que possua o mesmo tom e mistura de cores do Cattle Dog”, ressalta Narelle. “Essas marcações, manchas e máscaras são, inclusive, únicas de cada exemplar, podendo ser consideradas uma impressão digital, pois dois Cattle Dogs nunca serão exatamente iguais”, completa Joaquim.

ASPECTOS DA CRIAÇÃO

Iniciar um canil de Australian Cattle Dog exige dedicação, conhecimento e responsabilidade. “Como ocorre com qualquer raça, antes de iniciar a atividade o interessado deve fazer uma reflexão sobre sua disponibilidade de tempo e investimento e buscar muita informação sobre a personalidade, o padrão e a saúde desse cão, além de estudá-lo, participar de eventos cinófilos e trocar informações com outros criadores”, explica Joaquim, que destaca também a necessidade de contar com estrutura adequada para acomodar os cães, promover a socialização e realizar atividades físicas. “Para não começar errado, é muito importante que a pessoa que vai iniciar um canil de Cattle Dog procure primeiramente um criador sério, que possa o orientar”, comenta José Otávio.

Quanto à seleção de progenitores, deve-se levar em conta aspectos não apenas morfológicos, mas também avaliações de saúde, como laudos para a displasia coxofemoral e de cotovelo. “Apesar de a raça não ter altos índices de incidência desses males, por ser um cão de trabalho, há uma necessidade maior de controle”, comenta Joaquim. Ambos os problemas podem acarretar incapacidade parcial ou até total de locomoção. “Os reprodutores do meu canil também passam por raios-x das articulações do cotovelo e da bacia”, afirma Narelle. “As displasias coxofemoral e do cotovelo estão entre as doenças que mais afetam a raça e são controladas em meu canil por meio de radiografias dos padreadores e matrizes”, diz José Otávio.

“A aparência prateada dos pelos mais longos torna esses cães muito charmosos”, diz Joaquim Dode – Foto: Arquivo do canil Sentinela Farrapo

Além desses exames, é importante que matrizes e reprodutores passem pelo teste Baer, avaliação na qual os reflexos auditivos são estimulados por uma máquina que emite sons em várias frequências. “Em países que realizam o teste como rotina, a surdez afeta ao redor de 15% da população da raça”, relata Joaquim. Um dos aparelhos disponíveis para esse teste é chamado de Baercom. Trata-se de sua versão portátil e móvel, de mais fácil acesso do que as máquinas hospitalares tradicionais. “Esse mal é congênito”, comenta José Otávio, que também é veterinário. “Está associado na raça ao gene piebald, ou seja, da cor malhada. Os exemplares da raça devem realmente passar por esse teste de audição com 7 semanas de idade”, acrescenta Narelle. Os afetados ou possivelmente transmissores devem ser afastados da procriação.

Criador José Otávio segurando filhotes de Cattle Dog da cor vermelho salpicado – Foto: Arquivo do canil Australian Outback

Também é extremamente aconselhável que, antes da cobertura, candidatos a progenitores passem por testes genéticos moleculares (como o para atrofia progressiva de retina, que pode levar à cegueira). “Pois é bastante desanimador começar uma criação, investir dinheiro e depois perceber, só lá na frente, que o plantel possui esse e outros problemas genéticos”, comenta José Otávio. A realização de exames de praxe em cães de quaisquer raças destinados à reprodução também não deve ser negligenciada. “É o caso do espermograma nos machos e, em se tratando também das fêmeas, hemograma e o exame de diagnóstico da brucelose, mal causado pela bactéria Brucella canis, que causa aborto e infertilidade”, menciona Joaquim. Ele explica também que o acompanhamento pré-natal, durante o parto e período neonatal também contribui para ninhadas saudáveis. “Eles são tão importantes quanto escolher os cruzamentos, além de serem diferenciais que distanciam o criador do multiplicador de filhotes”, diz Joaquim.

“O Cattle Dog normalmente proporciona poucos problemas quanto à reprodução em si: os partos, por exemplo, ocorrem sem necessidade de cesariana”, comenta Narelle. Joaquim concorda: “geralmente, esses cães não têm maiores problemas nesse sentido”. Mas José Otavio alerta: “quanto à monta em si, às vezes há dificuldade de efetuar o acasalamento. O criador deve colocar o macho com a fêmea na hora certa, porque senão eles começam a brigar muito e acabam não acasalando”. Como ocorre em todas as raças caninas, a fêmea está pronta para ser coberta entre o 9º e o 14º dia do cio, fase em que a cadela urina com maior frequência e apresenta a vulva inchada, entre outros sinais. “Em média, as ninhadas são de cinco a sete filhotes”, conclui o veterinário.

Com todos esses cuidados por parte do criador e do proprietário, o Australian Cattle Dog tem tudo para confirmar sua longa expectativa de vida. “A rusticidade desses cães merece destaque”, diz Joaquim. “A raça realmente se caracteriza pela longevidade, pelo próprio metabolismo lento deles: a maioria dos meus exemplares vive 14 anos ou mais”, finaliza Narelle.

Agradecimentos:

JOAQUIM e MARIA EDUARDA DODE, canil Sentinela Farrapo (53) 99155-0560, www.sentinelafarrapo.com.br, Instagram:

@canilsentinelafarrapo

JOSÉ OTÁVIO MONTEIRO GALVÃO, canil Australian Outback – (12) 99785-1655, Facebook: José Otávio Outback, Instagram:

@australian_outback_kennel

NARELLE HAMMOND, canil Kombinalong – www.kombinalongacds.com


Por Fabio Bense

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