Pastor de Shetland: o encantador de humanos

Saiba como anda a criação brasileira desse cão inteligente, charmoso e de expressão doce

Foto: Arquivo de Patty Oliveira (canil Olives Mount)
Apesar do porte pequeno, o Pastor de Shetland chama muita atenção pela beleza e imponência

Também chamado de Sheltie, ele provoca admiração imediata por onde passa. “Sua pelagem abundante, com juba bem definida, chama muita atenção pela beleza e imponência, mesmo sendo um cachorro de porte pequeno”, afirma Ana Luíza Schames, do canil Castle Glamis, de Porto Alegre. “O Pastor de Shetland reúne leveza e elegância”, comenta João Pereira Junior, do canil Jota Jota, de Osório, RS. “Já no comportamento, o que mais conquista as pessoas é sua extrema facilidade de aprendizado e o forte vínculo com a família. Trata-se de um cão sensível e leal, além de ativo e ágil. Essa união de temperamento e beleza desperta nas pessoas uma grande vontade de tê-lo como companheiro”, completa Ana Luíza.

REGISTROS DA RAÇA
Apesar de a cada ano a raça estar mais conhecida em nosso país, o número de registros emitidos pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC) para exemplares de Pastor de Shetland vem diminuindo: se, em 2023, foram 1.061, no ano seguinte tal cifra se reduziu para 872 e, em 2025, para 764. “A menor quantidade não é exclusiva do Sheltie, faz parte de uma ‘onda’ maior”, afirma João. “Muitos canis estão registrando em outras associações por serem mais baratas”, comenta Kamile dos Santos, que cria junto de Samuel da Silva pelo canil Compostela e Abdels Shing, de Sapiranga/Araricá, RS. “A diminuição se deu por conta da atual situação econômica do Brasil, que leva até alguns criadores a não estarem registrando seus filhotes”, acredita Patty Oliveira, do canil Olives Mount, de Cotia, SP. João corrobora: “De fato faz parte do momento que o País vem passando, não só relacionado à crise financeira, mas também ao desconhecimento sobre cinofilia e à popularização da adoção dos cães Sem Raça Definida, o que não precisaria significar desvalorizar a criação responsável. Como se vê, a diminuição de registros não significa queda de popularidade da raça e sim uma mudança do consumo”, afirma João.
Os países que mais registraram exemplares de Pastor de Shetland em 2025 foram os Estados Unidos – cerca de 6 mil pedigrees emitidos pela principal entidade cinófila de lá, o American Kennel Club (AKC), que, diferentemente da CBKC, não é afiliado a Federação Cinológica Internacional (FCI) – e o Japão (2.628 registros concedidos pelo Japan Kennel Club).

Foto (esq.): Arquivo dos criadores (Kamile dos Santos e Samuel da Silva, canil Compostela e Abdels Shing) – A expressão típica do Pastor de Shetland é marcada por olhos vivos e atento
Foto (dir.): Arquivo da criadora (Ana Luíza Schames, canil Castle Glamis) – Quando filhote, o Sheltie é ainda mais ágil e brincalhão

QUALIDADE NACIONAL
Na criação de cães, normalmente, quando o volume cai, ocorre a saída ou ao menos a redução de criadores comerciais (ou seja, aqueles com foco em quantidade, sem critério) e a permanência dos canis mais técnicos, que priorizam tipo e padrão, resultando em uma média qualitativa mais alta em boa parte dos aspectos envolvendo a raça. Não à toa Kamile afirma: “Observo que a criação da raça Pastor de Shetland no Brasil melhorou muito nos últimos anos. Vejo que os exemplares estão mais bonitos, com mais estrutura, não estão tão finos. O tipo está belo, fruto do trabalho de criadores conceituados”. Mas tanto Patty quanto João ponderam: “Por aqui a raça vem melhorando significativamente, em especial quanto ao temperamento, mas ainda precisa de uma homogeneização, sobretudo em relação ao tamanho”, diz a criadora. “Realmente observa-se uma evolução no tipo e na expressão do Sheltie, porém é indispensável evitar que a fixação do fenótipo ocorra à custa de fragilidades futuras, equilibrando esse avanço com a manutenção da saúde, temperamento, funcionalidade e variabilidade genética”, diz João. Patty detalha: “As importações de grandes padreadores e matrizes fazem grande diferença na melhoria do plantel nacional e, devido à alta do dólar, fica inviável importar cães para trazer novas linhagens ao Brasil. Isso diminui as linhas de sangue disponíveis e, assim, as possibilidades de acasalamentos se tornam menores”.
Pelo padrão CBKC/FCI a altura ideal é de 37 cm para machos e de 35,5 cm para fêmeas. “Ele permite variações de 2,5 cm para cima ou para baixo”, afirma Arnaldo Nielsen, do canil curitibano Scotfield, mantido junto com Val Clausen. “Já o padrão do AKC tem limite de altura fixado em 40,64 cm e, por isso, os cães americanos são maiores”, acrescenta ele.
Patty ressalta que as exposições de conformação são a melhor forma de reconhecer a tipicidade e a qualidade dos exemplares. “Nelas, criadores podem aprender a ter um olhar mais clínico sobre a raça e a buscar seu aperfeiçoamento. Canis que se abstém totalmente desses eventos acabam não sendo norteados e podem se afastar do ideal buscado na raça, perdendo a tipicidade e qualidade”, afirma Patty. João alerta: “As exposições são uma importante ferramenta de seleção, mas vemos cada vez menos cães Sheltie nas pistas”. Arnaldo acrescenta: “Percebo não só tal diminuição como também a de exemplares premiados”. Ainda assim, um Pastor de Shetland de Ana Luiza obteve recentemente o título de Best in Show filhote na Sicalam, uma das exposições mais importantes da América Latina. “Trata-se de Castle Glamis Trump, que disputou com mais de 25 filhotes de altíssimo nível, representando diversas raças”, diz ela.

Foto (esq.): Vale Nallem/Cão: Castle Glamis Trump/Criadora.: Ana Luíza Schames – Trump obtendo o Best in Show da classe filhote na Sicalam
Foto (dir.): Arquivo do canil Jota Jota – Criador João Pereira Junior: “A criação da raça melhorou em nosso país, mas agora precisamos cuidar para não haver uma piora no futuro”
Foto (esq.): Arquivo de Patty Oliveira (canil Olives Mount) – A raça foi originalmente desenvolvida para pastorear ovelhas, pôneis e galinhas em terrenos difíceis
Foto (dir.): Christiane Handa Carneiro da Cunha/Garota: Vivian – Convívio com crianças e pistas de agility: duas especialidades do Pastor de Shetland

EXEMPLAR TÍPICO
Tanto na hora de escolher um filhote para exercer a função de companhia como para o que será destinado a criação, João afirma que é importante analisar o filhote (se ele parecer pesado, grosseiro, demasiadamente leve e delicado ou até mesmo apenas peludo, já deve acender um alerta) e, também, os pais. “Além de observar como é a criação do canil – se são cães felizes, bem tratados –; qual ferramenta ele utiliza para seleção (caso das exposições); como é realizado o controle sanitário. Com esses cuidados já haverá uma boa filtragem”, conta ele. Patty acredita que o brasileiro tenha um bom olho para discernir um filhote fenotipicamente (pela aparência), mas não genotipicamente: “Para isso é preciso pesquisar, ver muitas fotos e vídeos e procurar criadores responsáveis que se preocupem com saúde e façam exames genéticos para doenças”. Kamile acrescenta: “Quando se busca por um Pastor de Shetland, é preciso procurar não só um canil que invista em belos exemplares, harmônicos e de bonita estrutura, mas também que realize testes genéticos nos exemplares da raça”. Arnaldo relata que, atualmente, as doenças genéticas que mais preocupam a criação de Sheltie no Brasil são a displasia coxofemoral (má formação nas articulações do quadril que pode impedir o cachorro de se movimentar corretamente); dermatomiosite (doença de pele e do músculo, que pode fazer o cão perder os pelos em áreas específicas do corpo); anomalia do olho do Collie, o ancestral do Pastor de Shetland – ela pode fazer o cachorro perder completamente a visão; e hipertiroidismo, doença da tireoide e que faz o cão aumentar de peso. “O sobrepeso pode prejudicar a boa movimentação, principalmente por dores articulares, fatores que limitam a capacidade de correr, pular, subir escadas e realizar atividades físicas funcionais – ainda que seja utilizada como pet, a raça foi desenvolvida originalmente para pastorear ovelhas, pôneis e galinhas em terrenos difíceis. Assim, são cães geralmente ágeis”, diz Arnaldo.

Foto: Arquivo do criador (Arnaldo Nielsen & Val Clausen, canil Scotfield’s Shelties)/Cão: Ch. Scotfield’s Stay Away
A cor sable (também chamada de zibelina ou marta) é a da Lassie, da raça Collie, parente de tamanho maior do Sheltie
Foto: Arquivo de Patty Oliveira (canil Olives Mount)
A cor merle apresenta efeito marmorizado: uma mescla irregular de tons mais claros e mais escuros sobre uma base geralmente azulada
Foto: Arquivo dos criadores (Kamile dos Santos e Samuel da Silva, canil Compostela e Abdels Shing)
Exemplar tricolor que reúne preto, branco e tan, tom que varia entre o amarelo, o castanho e canela

CORES MAIS POPULARES E RARAS
Os entrevistados são unânimes: a coloração mais popular e conhecida no mundo todo é a marta, também chamada de sable ou zibelina. “Isso por ela ser geneticamente dominante e a base genética da raça, tendo, portanto, grande presença em linhagens fundadoras”, explica João. “Trata-se da cor que mais caracteriza o Sheltie. Os exemplares que as exibem – os mais lindos para mim – são os mais procurados pelo público”, afirma Kamile. Patty acrescenta: “Os pretos, em geral, são queridos, principalmente o tricolor (preto, branco e tan, tom que varia entre o amarelo, o castanho e canela), mas vejo que o brasileiro não o escolhe como preferência, principalmente se ele for da versão sem a marcação tan, chamado de preto e branco ou Bi-black. Já nos Estados Unidos ele é uma paixão nacional, grande vencedor em exposições. Kamile comenta: “A cor mais rara é a chamada bi-blue, ou seja, o azul merle sem a marcação tan”. Patty explica: “Realmente ela é a mais incomum e a sua variação com a marcação tan, o Blue Merle, é muito desejada pelo público”. Ana Luíza explica: “A cor merle apresenta um efeito marmorizado, ou seja, uma mescla irregular de tons mais claros e mais escuros sobre base geralmente azulada. Essa coloração cria um visual único, na qual manchas pretas aparecem distribuídas de maneira não uniforme, ainda que idealmente equilibrada – ou seja, sem grandes áreas sólidas predominantes – sobre o fundo acinzentado/azulado”.
Kamile alerta: “Filhotes que nascem com genótipo de duplo merle podem apresentar muitos problemas de saúde”. João detalha: “O cruzamento entre dois cães merle é contraindicado, pois pode gerar descendentes duplo merle (MM), com alto risco de graves alterações congênitas, como surdez, cegueira e outros defeitos oculares, comprometendo seriamente o bem-estar do exemplar, sendo uma prática eticamente inaceitável em um canil responsável”.

MANUTENÇÃO
Ana Luíza afirma que o ideal é realizar a escovação dos pelos duas vezes por semana: “Isso ajudará a remover fios mortos, evitar nós e manter a pelagem bem ventilada, especialmente por se tratar de uma raça com pelo e subpelo. A escova adequada a ser utilizada é a de pino e sem bolinhas nas pontas”. Ela acrescenta: “Em períodos de troca de pelagem é recomendável mais atenção na escovação, garantindo que o subpelo não acumule e evitando a formação de embaraços”. A criadora indica banhos a cada 20 a 30 dias. “Os muito frequentes podem remover a proteção natural da pele e prejudicar a qualidade do pelo. Entre os banhos, a manutenção com escovação já é suficiente para manter o cão limpo e com pelagem saudável e de boa aparência”, conclui Ana Luíza.

Agradecimentos:
Ana Luíza Schames, canil Castle Glamis – (51) 99888-4941,Instagram: castleglamis
Arnaldo Nielsen, canil Scotfield – (41) 99626-2905, Instagram: canil_scotfield
João Pereira Junior, canil Jota Jota – (51) 99963-9288, Instagram: @canilJotaJota
Kamile dos Santos e Samuel da Silva, canil Compostela e Abdels Shing – (51) 99876-6890, www.canilabdelsshing.com.br em www.canilcompostela.com.br, Instagram: canil_abdelshing, compostela_sheltie
Patty Oliveira e Cleber Antonio,canil Olives Mount – (11)99397-1717, Instagram: @sheltiesolivesmount, Facebook: Olives Mount, www.olivesmount.com.br, [email protected]

Por Fabio Bense

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