Boerboel: companheiro protetor

Os machos da raça devem ter pelo menos 60 cm de altura; já as fêmeas, no mínimo 55 cm – Foto: Arquivo do canil Exclusive Boerboel

Ele possui todas as características de um excepcional cão de guarda, além de ser afetuoso com a família

Desenvolvido no século XVII, esse cão sul-africano chama atenção: “ele é bastante forte e imponente, com musculatura muito bem desenvolvida em todo o corpo – uma imagem impressionante de potência”, diz Beverli Katz, do canil Klein Sandfontein, da África do Sul. “O Boerboel tem realmente aparência diferenciada em porte, força e musculatura”, ratifica Julia Ribeiro Ramos, do canil Exclusive Boerboel, de Santo Antônio da Platina, PR. Porém, o Boerboel também se destaca pelas suas características comportamentais. As principais estão relacionadas ao fato de ele ser decidido e corajoso, inteligente, obediente, bastante autoconfiante, alerta e de natureza firme e equilibrada. Graças a elas, seu trabalho de proteção sempre foi executado em estreita cooperação com toda a família. “O termo boer vem do holandês e significa ‘dono de uma terra ou agricultor’, e a palavra boerboel poderia ser traduzida como cão do fazendeiro ou cão do agricultor”, explica Henrique Ramos, marido de Julia e sócio do canil Exclusive Boerboel.

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Caráter do Boerboel: ele se forma até os 8 meses de idade, período em que não é difícil educá-lo – Fotos: Arquivo do canil Exclusive Boerboel
Boerboel: afetuoso com a família, especialmente com crianças – Fotos: Arquivo do canil Exclusive Boerboel

FORMAÇÃO

Há cerca de 2700 anos, cães robustos eram criados na área que corresponde ao Oriente Médio, grandes o suficiente para lutar com leões e elefantes. Aparentemente, alguns desses cachorros encontraram caminho para a África e, com a migração da população, mudaram-se para o sul do continente, onde desempenharam papel importante na formação do Boerboel.

Muito tempo depois, em 1652, colonizadores holandeses chegaram à África do Sul trazendo consigo cães chamados de Bullenbijters. Mais tarde, eles ganharam a companhia de outros cachorros, de tipo Mastiff, da França e da Alemanha, e, posteriormente, de certos Mastiffs ingleses. Todos eles, possivelmente, também participaram do desenvolvimento do Boerboel. 

APARÊNCIA INCOMUM

Seja pela influência dos cães ancestrais africanos ou pela seleção natural ou cuidadosamente executada pelos Boers, o Boerboel típico é, estruturalmente falando, mais sólido do que outros cachorros de tipo molosso, ou seja, de físico massudo e cabeça avantajada. “Comparando-se, por exemplo, ao Cane Corso e ao Presa Canário, outros cães que já tive, o Boerboel é mais largo e musculoso, com cabeça bem maior e mais quadrada”, avalia Rui Navarro, do canil Elite Boerboels, de Portugal. “Enquanto esses outros dois são mais ágeis e esguios, o Boerboel causa maior impressão pela imponência, que acaba por dissuadir invasores mais facilmente”, completa ele, que também faz treino de proteção com seus Boerboels.

FUNÇÕES ATUAIS

Tanto na África do Sul quanto na Europa e no Brasil, as principais utilizações da raça hoje são companhia e guarda. Com relação à última, ela é executada de diversas maneiras: o Boerboel, por exemplo, se sai bem como cão de proteção pessoal, e o mesmo vale para a guarda territorial. “Porém, mais do que tudo isso, ele vai defender a família e, assim, essa é a função na qual o Boerboel tem realmente grande sucesso atualmente”, comenta Rui. “Ele realmente é um excelente cão de guarda de sua família e de quem considera sua família. É desconfiado com pessoas estranhas, mas, extremamente amoroso e confiável com as pessoas do lar, sua família”, reforça Julia.

Boerboel: cão de guarda da família
com sentidos aguçados – Foto: Arquivo do canil Elite Boerboels

“Nos dias atuais, com tantos assassinatos de fazendeiros ocorrendo na África do Sul em virtude de questões raciais, a função principal do Boerboel em meu país está relacionada a ser um membro da família que oferece grande segurança”, comenta Beverli. “Além de possuir um instinto protetor muito forte, ele intimida qualquer agressor por causa de seu peso e tamanho. Meus machos, por exemplo, têm em média 85 kg e não são gordos”, complementa a criadora.

“O Boerboel é endêmico da África do Sul”, diz Beverli. Ou seja, originalmente era restrito a esse país – Foto: Arquivo do canil Klein Sandfontein

“Como companheiro, ele é brilhante: adorável e leal”, ressalta Beverli. “Trata-se realmente de um cão de família espetacular, que se destaca bastante nesta função”, confirma Rui. “O Boerboel é extremamente sensível aos sentimentos do dono, tem quase um sexto sentido e, também por isso, considero seu comportamento muito diferente de todas as outras raças com que já trabalhei”, comenta Julia, cujo canil lida também com adestramento de cães há cerca de 15 anos, com foco na guarda familiar. “Ele percebe as alterações de humor de seu dono, dando apoio e se aproximando calmamente para buscar confortá-lo”, acrescenta ela, que ressalta também o fato de o Boerboel ser confiável, praticamente não soltar pelos e gostar das crianças da casa, mostrando-se tolerante e amoroso com elas.

“Ele é genuinamente hipermeigo com a garotada: os meus Boerboels são capazes de se manter superequilibrados tanto ao lado de um bebê de 2 meses como de uma menina de 10 anos e, ao mesmo tempo, ‘trocar o chip’ facilmente e entrar em modo de proteção da família”, reforça Rui.

Criador Rui, de Portugal: foco no Boerboel como cão de trabalho – Foto: Arquivo do canil Elite Boerboels

Beverli lembra, no entanto, que, devido ao tamanho enorme do Boerboel, é primordial que ele seja socializado e integrado à vida familiar. “Eles são cães de matilha e precisam compreender totalmente a hierarquia do lar para assumir plenamente seu papel nele”, orienta a criadora, que complementa: “os machos tendem a ser dominantes, e isso pode levar a problemas de comportamento se forem educados de maneira inadequada por donos inexperientes”.

ATIVIDADES DO PASSADO

O padrão adotado pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC) menciona que, além da guarda, o Boerboel também é utilizado como cão de lida com bois. “Mas desconheço alguém que, em meu país, ainda o utilize para tal função”, comenta Beverli. Ela explica que já há um padrão mais atualizado, adotado pela South African Boerboel Breeders’ Society (SABBS).  Antigamente, esse trabalho com o gado era executado durante o dia e para ele eram preferidos os exemplares da raça mais ágeis do plantel do fazendeiro. O Boerboel ajudava a arrebanhar os bois e, quando eles eram ordenados a ficar em fileira, o cão os intimidava para que ficassem parados e apresentassem suas cabeças para serem presas. Se algum deles decidia correr, o Boerboel imediatamente o continha e, em casos extremos, o agarrava pelo nariz e o trazia para o local desejado.

Outra de suas funções originais era a caça de leões e leopardos na África do Sul. Os felinos eram primeiramente perseguidos e encurralados por galgos. Aí os cães Boerboel e sua força extrema entravam em cena para a luta. No caso do leão, se o Boerboel sobrevivesse, ele raramente saía sem feridas graves. Quanto ao leopardo, havia agricultores que o caçavam com apenas um exemplar da raça, que frequentemente matava o felino com muito pouco dano a si mesmo. “Hoje em dia, não se caça mais leopardos e leões com Boerboel por aqui”, informa Beverli.

Criadora Beverli: ela foi apresentada à raça em 2001
– Fotos: Arquivo do canil Klein Sandfontein

BRASIL E MUNDO

O Boerboel chegou ao nosso país em dezembro de 2001, trazido pelo empresário belga Joe de Coene, que, na época, havia se mudado para o Brasil. A CBKC reconhece esse cão desde 2004, no grupo 11, voltado a raças ainda não aceitas pela Federação Cinológica Internacional (FCI). Desde então, a entidade nacional emitiu 60 pedigrees de Boerboel, 25 deles nos últimos 5 anos. “Temos cinco exemplares da raça adultos, adquiridos da Europa, parte deles de linhagens da África do Sul”, conta Henrique.

A FCI ainda não reconhece o Boerboel como raça por razões que envolvem questões políticas internas sul-africanas. “Ainda assim, o controle radiográfico das displasias coxofemoral e de cotovelo é realizado de acordo com os regulamentos da FCI, pelo professor veterinário Robert Kirberger, no Onderstepoort Animal Hospital, em Pretoria, África do Sul”, relata Beverli.

Boerboel preto, uma das cores aceitas pelo padrão atual da SABBS – Fotos: Arquivo do canil Klein Sandfontein

Nos Estados Unidos, onde há muitos criadores de Boerboel, a principal associação cinófila, o American Kennel Club, reconheceu o Boerboel em 1 de janeiro de 2015. Ele também é aceito por entidades cinófilas em Israel e pela Europa, como na Rússia.

Beverli ressalta o fato de o Boerboel ser endêmico da África do Sul e bastante conhecido pela população de lá. “Ele foi declarado Landrace, o que significa que pertence e representa a África do Sul: é extremamente popular por aqui como cão de família e de guarda”, conta ela. “Sem dúvida alguma, o lugar onde essa raça tem mais presença é seu país de origem, onde existem realmente muitos canis da raça”, diz Rui. “A maior parte dos criadores ainda se encontra na África, especialmente na África do Sul”, confirma Julia. “Na recente exposição internacional de Boerboel, realizada em 6 de novembro de 2021 no Afridome Showgrounds, em Parys, Província de Free State, houve 500 exemplares da raça inscritos”, revela Beverli. Ela explica também que a SABBS é a única organização nos dias de hoje que pode conceder registros para o Boerboel na África do Sul. Porém, a entidade cinófila eclética de lá, a Kennel Union of Southern Africa (KUSA), afiliada à FCI, reconhece a raça. “A KUSA, assim como outras entidades sul-africanas – essas últimas especializadas na raça –, também costumava emitir pedigrees para exemplares de Boerboel, mas isso só até a SABBS entrar em operação, o que ocorreu em setembro de 2014. A partir de então, ela se tornou a única autoridade legal de registro de Boerboel em meu país”, relata Beverli. Ela acrescenta: “o studbook da SABBS é baseado em um programa chamado Logix, que possui um banco de dados com todos os registros emitidos para a raça Boerboel”.

“Já há muitos exemplares da raça em meu pequeno país”, conta Rui. Henrique confirma: “realmente há nações europeias que estão muito fortes em número de criadores, caso de Portugal”.

Associação:

SOUTH AFRICAN BOERBOEL BREEDERS’ SOCIETY – sabbs.org

Agradecimentos:

BEVERLI KATZ, canil Klein Sandfontein Boerboels –

www.kleinsandfonteinboerboels.com;

[email protected]

HENRIQUE E JULIA RAMOS, canil Exclusive Boerboel www.boerboelexclusive.com; Facebook: Boerboel Exclusive Brasil, Instagram: @BoerboelExclusive

RUI NAVARRO, canil Elite Boerboels – eliteboerboels.com, [email protected]; Instagram: @eliteboerboels,

Facebook: eliteguardboerboels


Por Fabio Bense

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