Border Collie: prazer em trabalhar e executar funções

Entenda por que ele é considerado um dos cães mais adestráveis do mundo, muito usado em modalidades esportivas

Foto: Johnny/Cão: Prime Dream Harvey Specter/Criadora e proprietária: Camila Junqueira

Ativo, disposto, rústico e bastante treinável. Essas são qualidades que remetem diretamente ao Border Collie, o cão que mais rapidamente compreende informações e as processa. “Não tem a ver só com inteligência, mas com todo um contexto que envolve um comando em que ele entende a informação do pedido e age bem mais rápido e com mais assertividade do que outras raças. A noção dele do que está acontecendo e do que precisa ser feito em um determinado espaço é muito veloz e aguçada e essa ‘leitura’ do ambiente e tomada de atitudes para realizar a tarefa decorre do fato de ele ser bastante observador e passar horas prestando atenção em tudo”, explica Thiago Santos, que trabalha com prevenção e correção comportamental por meio da psicologia canina, além de ser proprietário do canil Border W.S, de Piracaia, SP. “A inteligência é algo muito relativo, que nós humanos utilizamos para definir como os cachorros respondem a gente. Claro que na formação da raça foram selecionados cães com inteligência, mas um tipo exclusivamente vinculado à obediência em relação ao Homem, à forma muito rápida e fácil deles responderem ao ser humano e aos comandos desse”, acrescenta Camila Junqueira, do canil Prime Dream, de Ribeirão Preto, SP.
O ranking mais famoso de adestrabilidade das raças caninas foi publicado no livro A Inteligência dos Cães, do psicólogo canadense Stanley Coren. “Mas mesmo nele é avaliada a resposta aos comandos do ser humano e não uma inteligência única e universal”, esclarece Camila. Ela acrescenta: “Não é que, por exemplo, um terrier não seja tão inteligente quanto um Border – o primeiro é inteligente para o que ele foi selecionado, ou seja, basicamente, não prestar tanta atenção no ser humano e, sim, em cercar presas na caça. Já o Border foi selecionado para prestar atenção no ser humano e fazer a leitura da linguagem corporal dele, algo do qual possui nível muito alto”. Tarcísio Mendel, do canil Border Mendel’s, de Santo Antônio de Pádua, RJ, afirma: “Esse é um dos seus grandes diferenciais. Ele observa atentamente o tutor, incluindo sua postura, direção do olhar, mudanças emocionais e movimentos, mesmo os sutis, feitos com as mãos”. A raça é sensível a esses últimos. “Por essa razão costuma-se iniciar os treinos com gestos manuais para conduzi-lo e posicioná-lo”, conta Michele Mangini, do canil Figueira, de Ibiúna, SP. “Esse cão responde a gestos mínimos, muitas vezes antes mesmo de um comando verbal, ajustando seu comportamento conforme a intenção do humano”, diz Tarcísio. Michele acrescenta: “A voz entra apenas para chamá-lo pelo nome e porque para nós, humanos, é bem mais fácil falar do que se mexer e, então, as palavras afirmam o que esperamos deles. Mas elas não são necessárias para ensinar um Border Collie, ele nos lê de cima a baixo. Prova disso são cães da raça surdos realizando truques ou praticando esportes como o agility”.

Foto: Johnny/Cão fêmea: Prime Dream Donna Paulsen, melhor da raça pelo ranking DogShow 2023/Criadora e proprietária: Camila Junqueira
Border Collie com sua cor mais icônica, a preta e branca: pelo padrão CBKC a altura ideal dos machos é de 53 cm (as fêmeas são ligeiramente menores)
Foto: Arquivo do canil Border W.S.
Criador Thiago Santos, que também é terapeuta canino

Fotos: Arquivo do canil Figueira
“Sensível a movimentos com as mãos, o Border costuma ser iniciado nos treinos para
posicioná-lo por meio de gestos manuais”, diz Michele

ESPORTES
“O que mais me chama atenção durante a atividade de pastoreio com um Border é o vínculo extremo dele com seu dono/condutor”, diz Diego Schaf, do canil República do Border, de Torres, RS. “Tanto no pastoreio quanto na pista de agility impressiona o quanto o Border Collie presta atenção no ser humano”, afirma Camila. “Nas duas atividades fica muito evidente a parceria intensa entre cão e tutor”, complementa Tarcísio. “Ambas são muito similares, estão bastante relacionadas a ouvir comandos humanos, interpretá-los e responder de forma mais rápida possível em relação aos obstáculos e às ovelhas. O que muda é que as últimas são trocadas pelos primeiros”, conta Camila. “E nas duas o que mais me encanta em um exemplar da raça é o foco, a obstinação em cumprir o trajeto proposto e a precisão em executá-lo”, afirma Michele. No agility o Border percorre circuito com diversos obstáculos que exigem compreensão do jeito certo de fazê-lo e agilidade de movimentos. “Nas provas desse esporte o Border Collie se destaca principalmente pela extrema velocidade aliada à precisão, excelente capacidade de concentração e rápida leitura do percurso e do condutor – ele antecipa movimentos com base apenas na postura deste”, diz Tarcísio. Diego enumera qualidades do Border nas provas de pastoreio, nas quais o exemplar da raça deve conduzir o rebanho solto em um campo vasto até o curral: inteligência; agilidade; habilidade natural de “ler” o rebanho de gado ou ovelhas, inclusive diante de situações de fugas e de enfrentamento; capacidade de se manter obediente mesmo trabalhando bastante com o instinto.
“Ele tem esse último altamente desenvolvido, o que é demonstrado tanto no pastoreio real como nas provas”, comenta Tarcísio, que acrescenta: “Outra de suas principais qualidades é a tomada de decisão autônoma, ou seja, sem comando direto do tutor, mantendo o foco no trabalho e encontrando caminhos alternativos para alcançar um objetivo”.
Camila corrobora: “No pastoreio, o Border Collie tanto faz uma boa leitura do rebanho, trabalhando sozinho, como consegue entender o que a gente quer dele por meio dos comandos. Com base nessa ligação ele vai trabalhando”. Tarcísio completa: “Destaco também o fato de ele interpretar sinais ou comandos à longa distância e a capacidade, com economia de movimentos e sem latidos, de controle do rebanho”. Thiago explica que a última qualidade está relacionada à anterior e que nenhuma outra raça o iguala nisso. “E o Border também sabe o que é direita e esquerda, toca o rebanho para ambos os lados, conforme a necessidade do pastor. Até hoje ele é o único cão que consegue fazer as quatro laterais, ou seja, movimentos para a direita, esquerda, retornar ou seguir com o rebanho, além de parar”, diz o criador.

Foto: Arquivo do canil Border Mendel’s
 Criador Tarcísio Mendel: “Minha premissa é saúde, melhoramento genético e temperamento”
Fotos: Camargo Fotografi as/Propr. do cão: Diego Schaf (canil República do Border)
O  Border Collie tem habilidade natural de “ler” o rebanho de ovelhas, trabalhando da melhor forma mesmo diante de fugas e enfrentamento e até hoje a
técnica de pastoreio da raça envolve o “eye”, ou seja, o olhar fixo

SELEÇÃO GENÉTICA
A raça é originária da fronteira (do inglês, border) entre a Inglaterra e a Escócia, no Reino Unido. “Embora cães de pastoreio existam nas ilhas britânicas há milênios, a seleção específica que deu origem ao Border Collie moderno consolidou-se nos anos 1800, época em que já se destacava pela atividade de pastoreio. O marco inicial é frequentemente atribuído a um cachorro chamado Old Hemp, nascido em 1893 e que se tornou um reprodutor de elite, gerando mais de 200 filhotes. Ele não era o mais bonito, mas sua técnica de pastoreio — silenciosa e intensa, usando o ‘eye’ (o olhar fixo e penetrante) — era muito superior e fixou o estilo de trabalho do Border até hoje”, relata Thiago. Por vários anos, a seleção genética pela qual passou a raça Border Collie deixou o fenótipo (ou seja, a aparência dele) em segundo plano.
“Diferentemente de outras raças que tiveram seus padrões estritamente definidos para exposições de beleza, o Border foi moldado exclusivamente pelo trabalho”, explica Marcelo Couto, do canil Border Sammy, mantido em parceria com Pamela Yamamoto. “Por muito tempo a seleção do Border Collie foi única e exclusivamente focada na função de pastoreio. Então, o cão precisava ter boa compreensão da informação passada pelo ser humano e da maneira como o rebanho se movimenta”, completa Camila.

Foto: Arquivo do canil Border W.S.
Exemplar da raça na cor red
Foto: Johnny/Criador do cão: canil Border Mendel’s
O padrão do Border Collie aceita até o merle, cor proibida em boa parte das raças canina
Foto: Arquivo do canil Border Sammy
“O formato do crânio do Border não foi selecionado pela beleza, mas para acomodar a musculatura ocular e capacidade de foco”, diz Marcelo


“O Border passou por um processo de seleção no qual a capacidade de trabalho e a inteligência funcional sempre foram priorizadas em detrimento da aparência. Os criadores e pastores buscavam cães extremamente eficientes no manejo de rebanhos, capazes de tomar decisões rápidas e responder com precisão aos comandos humanos. O que realmente importava era a capacidade de aprendizado, concentração, leitura do ambiente e parceria com o tutor, características que até hoje definem a raça”, reforça Tarcísio. Marcelo informa: “Tal seleção foi baseada em testes de campo, os Sheepdog Trials. As características físicas não eram tão importantes como a ligação que o cão deveria ter com o rebanho, facilidade de aprender e responder comandos e vontade praticamente incessável de trabalhar, o que gerou grande heterogeneidade dos fenótipos da raça”. Essa última ainda é a evidência mais clara de que a funcionalidade venceu a estética. “Havia e ainda há uma grande variedade de cores, tipos de orelha e pelagem dentro do padrão”, afirma Tarcísio. O Border pode apresentar características que seriam faltas graves em outras raças. “Por exemplo, entre a imensa gama de cores – que inclui red, chocolate, tricolor além do icônico preto e branco – pode se encontrar o blue merle”, ilustra Marcelo, que acrescenta: “O próprio formato do crânio não foi selecionado para ser bonito, mas para acomodar a musculatura ocular e a capacidade de foco”. Camila pondera: “Porém, há décadas também se iniciou a escolha de cães por aparência – a raça saiu das fazendas com a migração das famílias do campo para as cidades e começou a entrar mais em exposições e aí começou a seleção de pelagem, tamanho, ossatura e cabeça”. Marcelo corrobora: “De fato, a elaboração de um padrão físico e o reconhecimento internacional do Border Collie como raça o tornou popular nos eventos de morfologia e gerou tal seleção, na qual os criadores buscam minuciosamente características físicas compatíveis com o documento e temperamento equilibrado”. Camila conclui: “Nos dias de hoje temos inclusive duas linhagens de Border – uma para trabalho e outra para exposição”.

Foto: Vale Nallem/Cão fêmea: Prime Dream Donna Paulsen, melhor fêmea Border pelo ranking CBKC 2023 e melhor da raça na
Américas e Caribe 2023/Criadora e proprietária: Camila Junqueira
A pelagem do Border de linhagem de exposição costuma ser mais peluda que a de pastoreio, mas ela não o impede de trabalha
Esq. foto: Leonardo Luz/Dir. foto: Arquivo do canil Border Sammy
Filhote da raça: a partir de cerca de 40 dias já se pode iniciar o processo de ensino de comandos básicos. Ao centro, criadora Camila Junqueira

APRENDIZADO
Camila afirma: “Pela capacidade maior de fazer a leitura do ser humano, a velocidade do Border Collie em aprender é, na maioria das vezes, maior do que a de outras raças”. Assim, ele consegue assimilar um novo comando com poucas repetições – em geral, menos de dez. E os básicos – como “senta”, “deita”, “fica” (com autocontrole e duração maiores que a média) e “dá a pata” – são aprendidos desde muito cedo. “A partir de uns 40 dias já se pode iniciar o processo de ensino para eles, que precisa ser fundamentado na memória dele e, por isso, constância é essencial. O ideal é ter uma sólida rotina diária para esse treino”, explica Michele.
“Ele deve ser claro, coerente, estimulante e com repertório vasto. Certa vez entreguei uma filhota a uma nova família e em 15 minutos recebi um vídeo dela respondendo aos primeiros comandos”, comenta Tarcísio.
Michele relata: “Quanto aos truques, ele aprende uma infinidade deles, tudo o que a imaginação permitir ensiná-lo, como cumprimentar, morto e rolar”. Tarcísio relata: “Também aprende com facilidade, por exemplo, o girar sobre o próprio eixo; buscar objetos específicos pelo nome; apagar luzes ou acionar alavancas. E alguns exemplares de minha criação abrem o portão dos canis – aprenderam no dia a dia, apenas olhando”. Camila explica que a raça tem facilidade muito grande de assimilar comandos de adestramento avançados, como os de dança e os que envolvem o convívio com pessoas de necessidade especiais. “Alguns cães da raça conseguem inclusive aprender nomes de objetos e brinquedos, habilidade incrível e bem diferente”, relata a criadora.
“É comum vermos exemplares da raça Border Collie resolvendo problemas relacionados a brinquedos interativos de alta complexidade, capacidade que mostra não apenas obediência, mas raciocínio e adaptação”, finaliza Tarcísio.

Nossos agradecimentos:

Camila Junqueira – (16) 99175-0231, www.primedream.com.br e www.sitedocanil.primedream.com.br, Instagram: @primedreamkennel e @primedreamk, Facebook: primedreamkennel, [email protected]

Diego Schaf, canil República do Border – (51) 99365-9609,99315-3357, Instagram: @republicadoborder

Marcelo Couto e Pamela Yamamoto, canil Border Sammy – (37) 99967-4557, Instagram: @canilbordersammy

Michele Mangini, canil Figueira – (11) 96301-0604, Instagram: @canilfigueira, [email protected]

Tarcisio Mendel, canil Border Mendel’s – (22) 98115-4286, www.canilbordermendels.com.br, Instagram/Facebook: @bordermendelskennel, [email protected]

Thiago Santos, canil Border W.S – (12) 97404-9229, Instagram: @border.ws

Por Fabio Bense

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