Saiba como anda a criação desse cão alemão de bela e intimidadora aparência, muito inteligente e altamente treinável

Pelo padrão CBKC, o Dobermann macho mede de 68 a 72 cm e pesa de 40 a 45 kg,
enquanto a fêmea vai de 63 a 68 cm e de 32 a 35 kg
Em 2024, 1.112 cães da raça Dobermann foram registrados pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), a maior quantidade desde 2013. Além disso, tal cifra foi superior a de 14 países de cinofilias tradicionais, caso da França, Itália e Reino Unido. Entre elas, apenas a Rússia superou o Brasil, com 2.358 exemplares registrados no ano mencionado. “O grande potencial de adestramento da raça tem papel relevante no crescimento de seus pedigrees emitidos pela CBKC. Nos últimos anos houve uma evolução importante na valorização do treinamento canino estimulando o aumento no número de registros da raça”, afirma Walce Cardoso, do canil Do Bonde, de Uberlândia, MG. “A quantidade de exemplares no Brasil vem crescendo, pois esse cão tem ganhado fãs por aqui. Nada mais justo para a 5ª raça mais inteligente dentre todas”, conta Antonio Gamboa, do canil Senor Perro Real, de Salvador. Ele se refere ao fato de que, no ranking sobre adestrabilidade do livro A Inteligência dos Cães, o Dobermann ocupa a 5ª posição entre 133 raças e variedades. Mas o crescimento no número de registros se deu também por outras razões: “Além de mais criadores, os mais antigos passaram a ter mais ninhadas – na pandemia houve uma retração na criação, que começou a se normalizar em 2024, atendendo pessoas que queriam ter um excelente guardião na defesa da família, de fácil manutenção e convívio dentro de casa – se adestrado, será um companheiro ainda mais obediente”, diz Anna Maria Dona Dalle Rose, do canil Vida Nova. “O número de pessoas que buscam a raça para companhia e proteção é crescente. Um Dobermann com aptidão e bom temperamento pode ser treinado em pouco tempo para guarda pessoal”, afirma Kathleen Schwab, do canil Phanomen, de São Paulo.
“Aliás, para mim, o que realmente incentiva o aumento na criação de Dobermanns no país é a insegurança que a população tem tido, especialmente as pessoas que vivem em casas de grandes metrópoles – o Dobermann, em todo o mundo, é reconhecidamente um dos melhores cães de guarda, com maior aptidão e facilidade de adestramento além de possuir várias outras características que, comparadas a de outras raças, ajudam na decisão, como o pelo curto, ser limpo e sem cheiro, se adaptar bem a espaços menores e ser muito devotado à família”, comenta Edgard Morales Brito, do canil Weissensee, de São Paulo. “De fato a demanda por cães de guarda e proteção pessoal voltou a crescer de forma significativa nos últimos anos, impulsionada por essa sensação de insegurança que, para mim, é generalizada, abrange centros urbanos e áreas rurais. Dentro desse contexto, o Dobermann se destaca como um cão que alia presença intimidadora, extrema lealdade ao tutor e elevado controle emocional, o que o diferencia de outras raças tradicionalmente buscadas para essa finalidade”, acrescenta Walce.
Edgard, que é também juiz especializado na raça, afirma: “Esses exemplares relacionados ao aumento de registros/pedigrees são de boa procedência e não volume de mercado paralelo de espécimes da raça. Observo bons cães Dobermann no momento, raramente algum mestiço ou de baixa qualidade. A maioria dos exemplares tem estrutura boa a excelente, devido ao bom desenvolvimento da raça ao longo das últimas décadas (muito investimento e boa genética) por criadores renomados”. Anna Maria reforça: “É raro termos cães fora do padrão considerando filhotes de pais com registro CBKC. O que acontece são exemplares de maior ou menor qualidade”. O auge da popularidade do Dobermann no Brasil se deu nos anos 1980, quando a raça foi a mais registrada entre todas em 1983, 1984 (ano de seu recorde: 6.809 exemplares receberam pedigrees da CBKC),1985 e 1987. Vale ressaltar – entre esses exemplares que receberam registros ao longo de todos esses anos, a maioria sempre foi da cor preta com marcações de ferrugem, a chamada black and tan. O padrão seguido pela CBKC permite ainda o marrom com marcações de ferrugem. “Isso se deve ao fato de o preto ser dominante geneticamente ao marrom com ferrugem”, explica Simone Araújo, do canil MacCrimmon, de São Paulo

O peito do Dobermann típico tem boa largura e o antepeito é especialmente bem desenvolvido.

Antonio Gamboa com Dobermann da cor marrom com marcações ferrugem

Walce Cardoso com exemplar da tradicional cor black and tan
MUDANÇAS COMPORTAMENTAIS
Walce afirma que, nas últimas décadas, a criação do Dobermann passou por uma mudança de foco: “Priorizou-se cada vez mais exemplares voltados para a companhia e convivência familiar, em detrimento da seleção exclusivamente funcional para guarda e proteção”. Mas, apesar de linhagens mostrarem inclinação para uma ou outra função, é esperado que um Dobermann exerça ambas muito bem. Não houve perda total da aptidão para a guarda e sim uma reorientação do perfil comportamental da raça, que passou a ser, prioritariamente, de companhia, refletindo uma adaptação às demandas da sociedade moderna. “O Dobermann contemporâneo, de forma geral, apresenta-se mais estável e tolerante. Isso não significa um cão ‘fraco’, mas mais adequado ao convívio urbano e familiar, características hoje amplamente valorizadas pelo público, que está mais consciente de que um bom guardião não é o agressivo por natureza”, explica Walce. Antonio complementa: “Estão sendo gerados exemplares mais equilibrados e controlados, sociáveis, mas sem perderem a identidade de guarda nem deixarem de ser hábeis em proteger, capazes de unir trabalho e lazer, proporcionar excelente proteção e companhia familiar de forma segura dentro de casa”. Simone acrescenta: “Os cães da raça são companheiros, se dão bem com crianças, ligados a todos os membros da família e, ao mesmo tempo, promovem a guarda pessoal.

Normalmente, o Dobermann adora crianças e convive perfeitamente com elas
PROVAS DE ADESTRAMENTO
“O Brasil acabou relegando testes práticos de aptidão para proteção e trabalho para o segundo plano e, consequentemente, houve redução da participação desses cães em tais provas em relação às décadas passadas”, afirma Walce. Edgard comenta: “Os adestradores mais antigos têm um apreço maior pela raça do que os mais jovens”. Kathleen afirma: “Ela é muito fácil de treinar, mas como as provas de trabalho exigem, além de aptidão do indivíduo, uma enorme dedicação do adestrador – dependendo do objetivo, são necessários meses a anos de treinamento constante – há no momento poucos cães Dobermann participando das provas realmente. Porém, quando o treinamento é feito, eles recebem muitos elogios dos adestradores que trabalham com eles, caso de vários exemplares da minha criação”.
Walce comenta: “Especialmente nas criações excessivamente voltadas às pistas de conformação tal seleção estética pode impactar o funcional para trabalhos intensos e, em avaliações de trabalho, isso pode exigir maior estímulo do figurante para manutenção da mordida e do engajamento. Mas ainda existem exemplares aptos e criadores que mantêm esse foco”. Kathleen pondera: “No entanto, os canis que priorizam temperamento são bem poucos e, menos ainda, os que criam esse tipo de linhagem, diferentemente do Pastor Alemão e Malinois, cuja criação de cães de linhagem de trabalho é muito maior e isso reflete diretamente no número de exemplares participando de tais provas”. Anna Maria informa: “Eu tenho uma linha de sangue exclusiva de adestramento, sobretudo para competições. São cães utilizados pela polícia e pelas forças armadas para determinadas funções e eles são procriados e selecionados para esse tipo de trabalho”.
Kathleen conclui: “Nas provas de BH, que avaliam a sociabilidade e obediência básica, até é possível presenciar mais exemplares da raça participando. Já nas provas de IGP, com seções de faro, obediência e proteção, a quantidade hoje é pequena. No Campeonato Brasileiro de Adestramento de 2025 da CBKC, por exemplo, houve apenas um exemplar da raça concorrendo”.

Viggo Vitorius von Weissensee, 1º lugar no ranking DogShow top gene da raça de 2025, do criação de Edgard Morales Brito

Exemplar da raça com o criador Fabio Teixeira: o Dobermann possui incrível disposição para atividades

Foto: Petra/Cão: Phanomen Sirius Black/Criadora do cão: Kathleen Schwab
Sirius foi qualificado e participou de Mundiais de adestramento da raça (IDC WM) em 2024 (na foto) e 2025. No Campeonato
Brasileiro de Adestramento do ano passado da CBKC ele foi para o pódio em 3º lugar
NAS PISTAS
“A raça é muito apreciada nas exposições, onde tem ganhado bastante Best in Shows”, afirma Anna Maria. “Os cães Dobermann são um dos mais elegantes do mundo e uns dos mais vencedores em eventos de beleza”, confirma Fabio Teixeira, do canil Accattabriga, de Atibaia, SP. ”Sempre um vitorioso. Em todos os anos se observa exemplares da raça entre os melhores dos rankings brasileiros. Graças ao temperamento deles esses cães são fáceis de serem treinados para exposições, onde se destacam pela estrutura e, especificamente, movimentação”, comenta Edgard. Mas Walce afirma: “Quanto à participação, de modo geral houve queda ou estagnação nos últimos anos”. Ele relata que entre os fatores que contribuem para esse cenário estão o alto custo financeiro envolvido nas campanhas de participação nesses eventos, entre inscrições, manejo, deslocamento e preparação. Anna Maria reforça: “E é preciso ir a muitas exposições, e não apenas em uma, a fim de acumular pontos, concorrendo aos vários campeonatos. O Brasil é extenso, com eventos de norte a sul. E tudo isto custa muito entre viagens, despesas correlatas como hotel, etc.”. Fabio acrescenta: “E as viagens com cães do porte do Dobermann passaram a ser um complicador também – várias companhias aéreas têm dificultado o transporte deles mesmo dentro do Brasil”.

Cão fêmea: MacCrimmon TR The Pride and The Passion (Sophia), ganhadora da Nacional de Dobermann de 2024 e do Top 20 de 2023 e 2024

Dakar de Vida, Dobermann número 1 do Brasil em 2025: ele é grande campeão brasileiro, grande vencedor nacional, campeão uruguaio e de Plata 2025

Ella de Vida Nova: 5º melhor Dobermann pelo ranking CBKC 2025, além de, na classe jovem, 6º colocado entre todas as
raças e grande vencedora nacional e grande campeã
Para expor um exemplar da raça é necessário treiná-lo. “Ele deve saber se apresentar”, diz Anna Maria. “Os treinamentos começam de pequenos, colocando-os na mesa para que sejam manipulados. O Dobermann gosta de companhia e de aprender e isso faz com que ele seja um tanto fácil de treinar. Um passo muito importante é a socialização, apresentando o cão a diversas situações do dia a dia”, ilustra Simone, secretária do Conselho Brasileiro da Raça Dobermann. “Comumente vejo cães participando na categoria inicial e filhote com excelente desempenho pela facilidade no aprendizado e treinamento, que costuma durar poucas semanas até que obtenha ótimo resultado nas exposições”, completa Edgard. Antonio relata que, no Dobermann, é mais fácil chegar ao resultado final do trabalho de condicionamento para exposições do que em outras raças. “Uma abordagem consistente pode deixar um exemplar em stay– com postura firme e atenção ao condutor – já nos primeiros dez dias de treinos”, garante. Walce tem opinião similar: “Um exemplar típico, com treinamento diário e correto, associado a experiências positivas (ele responde mal a métodos ríspidos), costuma apresentar boa resposta ao condicionamento para o stay, em cerca de 10 a 15 dias. Já a movimentação em linha reta e apresentação certa em pista costuma demandar mais tempo, variando de um a três meses, pois envolve coordenação entre condutor e cão, controle de impulso e manutenção da expressão típica da raça durante o deslocamento”. Fabio conclui: “O Dobermann é muito ágil e gosta de trabalhar, o que facilita seu condicionamento para exposições. Cria uma conexão bem rápida com o dono ou handler”.
Associação:
Conselho Brasileiro da Raça Dobermann –cbrddobermanns.com.br
Agradecimentos:
Anna Maria Dona Dalle Rose, canil Vida Nova – Facebook: Anna Dona
Antonio Gamboa, canil Senor Perro Real – (71) 99989-4924, Instagram: @canil_senor_perro_real
Edgard Morales Brito, canil Von Weissensee – dobermanns.com.br, Instagram: @edgardmoralesbrito
Fabio Teixeira, canil Accattabriga – Instagram: @accattabriga_dobermanns
Kathleen Schwab, canil Phanomen – (11) 97992-7925, Instagram: @phanomen.dobes, Youtube: @phanomen, www.doberman.com.br
Simone Araujo, canil MacCrimmon – Instagram: @simonec.araujo
Walce Magnino Cardoso, canil Do Bonde – (34) 99979-2401, Instagram: @canil_do_bonde
Por Fabio Bense



