Cão de Crista Chinês: muito mais que um exótico cão de colo

Afetuoso e adaptável, profundamente conectado à família, ele se ajusta com facilidade a diversos estilos de vida e tem aptidão para esporte e até para TV

Foto: Arquivo da criadora do cão (Nateusca Fernandes)/Cão: Eashik Petitt Gateau (Pini)
Quando bem socializado e treinado, o Cão de Crista Chinês se transforma em um atleta encantador

As qualidades dessa raça não se restringem à aparência exótica mais comum, a quase sem pelos, que se destaca pelo carisma e elegância. “São cães de uma docilidade ímpar, fáceis de conviver e que transbordam imensa alegria de viver, sendo extremamente amistosos com todos ao seu redor”, comenta Marcio Luís de Medeiros, do Kwan Yuri Chow Kennel, de Caxias do Sul, RS. “Embora o visual exótico e a pele da variedade hairless costumem ser o primeiro atrativo, quem convive com o Cão de Crista Chinês — seja com ou sem pelos — descobre que seu verdadeiro trunfo é o temperamento”, afirma Nateusca Fernandes, do Eashik Kennel, de Xangri-la, RS. “Ele é um excelente companheiro, adora estar com os seus tutores”, diz Sérgio Pinho Alves, do Argos’ Legacy Kennel, de Aldeia, PE.
Como se vê, a raça possui duas variedades: a pelada (hairless) – que tem crista de pelo em sua cabeça que se estende parcialmente pelo pescoço, “meias” cobrindo as patas até a altura das articulações e pluma em sua cauda, sendo o resto do corpo sem pelos- e a Powder Puff, que é inteiramente coberta por véu de pelos longos e macios. “A pelagem da variedade Powder Puff, quando corretamente cuidada, apresenta visual magnífico e beleza indiscutível”, comenta Marcio.
Curiosamente, apesar do nome, não existem registros históricos que comprovem que a raça tenha sido realmente originada na China. “O que a literatura aponta são indícios e teorias de que cães sem pelo existiram em outras regiões, principalmente na África, e que passaram a circular pelo mundo por meio das rotas comerciais da época. Eles se popularizaram especialmente nos navios comerciantes chineses, onde eram mantidos, e foi essa forte associação com a China que acabou dando origem ao nome pelo qual a raça é conhecida hoje”, comenta Jessica de Souza, do canil Jess Royals, de Indaial, SC.

CÃO DE FAMÍLIA
Ao longo de sua história a raça desempenhou várias funções, como o controle de roedores e a guarda de pertences valiosos durante o período da dinastia Han da China (de 206 a.C. a 220 d.C.). “No entanto, com o tempo, ficou evidente que sua maior e mais verdadeira aptidão sempre foi a companhia”, afirma Jessica. “Ele é um companheiro perfeito – alegre e afetuoso. Ainda que reservado com estranhos, os aceita com total tranquilidade”, acrescenta Nateusca.
Jessica relata que, com crianças da própria família, esses cães costumam ser afetuosos, delicados e muito próximos. “Convive harmoniosamente tanto com idosos quanto, de fato, com os pequenos”, confirma Nateusca. “Se dão bem realmente com eles. Ainda assim, recomendo que a sociabilização seja feita, afim de evitar que uma abordagem um pouco mais abrupta por parte da garotada possa comprometer o processo”, pondera Sergio. “Já com desconhecidos eles podem demonstrar certa timidez inicial, algo natural da raça. Mas, quando a aproximação é feita de maneira respeitosa e o cão teve boa socialização desde cedo, essa reserva logo dá lugar à confiança, pois ele genuinamente gosta de pessoas, busca contato e proximidade”, garante Jessica. Ela afirma que um ponto forte do Cão de Crista se refere à sociabilidade e equilíbrio na convivência com outros animais. “Tenho um exemplar que vive solto em uma fazenda em Joinville, SC, convivendo em harmonia com coelhos, patos, galinhas, porcos, cabras, ovelhas, cães e inclusive animais de grande porte, como cavalos e gado”. Sérgio corrobora: “Eles, de fato, convivem bem com bichos em geral, incluindo cachorros das demais raças, de diferentes portes. O relacionamento com eles é realmente excelente”. Jessica ilustra: “Um filhote de minha criação foi para uma família no Rio de Janeiro, onde já havia um hamster. Em pouco tempo, eles dormiam juntos, enrolados”. Esse cão convive bem até com gatos. “É um traço curioso e marcante a sua predileção por eles – mesmo exemplares adultos que nunca conviveram com felinos tendem a aceitá-los e buscar brincadeiras de forma natural e harmônica”, relata Marcio, que também cria gatos.
A capacidade de adaptação ao ritmo de vida das pessoas impressiona. “Seja em momentos de descanso, no qual o dono está sentado num sofá, maratonando uma série no streaming, seja quando quer realizar uma caminhada ao ar-livre no calçadão da praia, no shopping ou no ParCão canino”, relata Sergio. “Uma das fêmeas da minha criação é exemplo disso – ela é tão tranquila que já me acompanhou em compras na movimentada Rua 25 de Março, em São Paulo, e, ao mesmo tempo, é uma esportista que adora jogar basquete e futebol”, acrescenta Nateusca, que complementa: “A raça de fato se molda inteiramente à rotina da família, é sempre a companheira certa. Há cães de minha criação que seguem estilos de vida opostos e igualmente felizes – alguns entram no mar com seus donos, enquanto outros passam o dia confortavelmente de roupinha no sofá. E o Cão de Crista Chinês pode viver perfeitamente em apartamentos, inclusive por raramente latir, mas também se ambienta em casas, sítios e até fazendas”.
A razão pela qual esse cão acompanha a rotina da casa com naturalidade está relacionada ao fato de ele ser extremamente ligado ao proprietário e criar, com muita facilidade, vínculos profundos com ele, o que permite atuar até como cão terapeuta. “Para os exemplares da raça o importante é estar com o dono, cercado de carinho, atenção e conforto”, define Sergio. “A presença da família é, sem dúvida, o que mais completa o Cão de Crista Chinês, que gosta de estar onde ela está, ou seja, uma presença constante, que busca contato, mas sem ser excessivamente grudenta, e que gosta de deitar junto, dormir encostado e, muitas vezes, escolhe o colo, o peito ou até o pescoço da pessoa como lugar preferido para descansar”, descreve Jessica. Sérgio completa: “Além de colo, carinho e atenção, essa raça gosta de muitas brincadeiras com bolinhas, pelúcias entre outros”. Marcio acrescenta: “E o Cão de Crista Chinês ‘conversa’ de forma vocal com seus donos, é comunicativo, além de possuir rigoroso padrão de higiene”.

Foto: Bibbo Camargo/Cães: Lapinus Go Go Girl (Powder Puff) e Lapinus Argos’ Legacy Zelda (Hairless)
As duas variedades da raça, cujos exemplares devem medir, pelo padrão CBKC, 28 a 33 cm (machos) e 23 a 30 cm (fêmeas
Foto: Arquivo de Jessica de Souza Lima (canil Jess Royals)
Esse cão costuma ser afetuoso e delicado com crianças da própria família

AGILITY
A chefe de cozinha Simone Flaksberg, que vive atualmente nos Estados Unidos, por dez anos praticou o esporte no Brasil com dois exemplares da variedade Powder Puff, Banzé e Pisco Sour, hoje aposentados e com, respectivamente, 14 e 10 anos.
“A própria estrutura da raça é muito favorável para saltos, movimentos rápidos e mudanças de direção. Ela gosta de se movimentar, se diverte pulando, é ligada à família e essa conectividade com o condutor faz diferença”, afirma Simone.
“O fato de o Cão de Crista Chinês criar um vínculo extremo com o ser humano o torna bastante adequado para treinar agility. Além disso, ele é ágil e atento”, conta Jessica, que também praticou agility. “Mas nem todos têm espírito atlético e o drive (foco) necessário: Banzé e Pisco Sour não foram fáceis de treinar – no começo, se mostraram teimosos e precisaram de muito estímulo para trabalhar”, pondera Simone. “Quando a parceria entre condutor e o Cão de Crista Chinês é construída com constância ele passa a gostar de agradar e a responder muito bem aos comandos, especialmente se o exemplar possuir estímulo por comida ou brinquedo – nesse caso, seu desempenho se destaca ainda mais, mostrando foco, entusiasmo, leitura muito precisa do condutor. Com base sólida de socialização e relação bem construída com o ser humano, o Cão de Crista Chinês se revela não apenas apto, mas surpreendentemente competente e prazeroso de trabalhar no agility”, comenta Jessica.

Foto: Arquivo da propr. do cão (Simone Flaksberg)/Cão: Banzé
A própria estrutura corporal do Cão de Crista Chinês é muito favorável aos movimentos rápidos e mudanças de direção típicos do agility

HABILIDADES COMO ATOR
Um exemplar Powder Puff de criação de Nateusca, Eashik Garoto (Chokito), participou de uma produção do canal HBO Max, Beleza Fatal, que foi ao ar no início de 2025. Ele interpretou Lolindo, o companheiro canino de Lola, personagem vivida por Camila Pitanga. O teste para o papel contou com cerca de dez cães, de raças como Spitz Alemão, Chihuahua e Papillon. Chokito ficou com o papel por questões como peso e adaptabilidade, já que o personagem passava muito tempo no colo da atriz. Embora o peso ideal do Cão de Crista Chinês não seja mencionado no padrão adotado pela Confederação Brasileira de Cinofilia, os exemplares costumam ter de 4 a 8 kg. Chokito também se destaca por ser o primeiro exemplar da raça da coloração chocolate a nascer no Brasil (o padrão aceita qualquer cor ou combinação).

Foto: Arquivo da criadora do cão (Nateusca Fernandes)/Cão: Eashik Garoto (Chokito), campeão brasileiro e pan-americano
Além de interpretar Lolindo, Chokito participou de diversas campanhas publicitárias

EVENTOS DE ESTRUTURA
Participar de exposições é algo fundamental para os criadores desta reportagem. Nateusca afirma: “As exposições são ferramentas essenciais de seleção para os canis”. Sérgio diz: “Participar desses eventos, submeter os cães ao julgamento de árbitros cinófilos, é absolutamente fundamental para uma boa criação”.

Foto: Edmilson Reis/Cão: Eashik Bianco I Nero/ Criadora: Nateusca Fernandes
Cão: Eashik Bianco I Nero, criação de Nateusca Fernandes, já obteve o título de vencedor das Américas e Caribe
Foto: Ronaldo Rufino/Cão: Argos’ Legacy China Girl/Criador: Sérgio Alves
Cão: jovem vencedora nacional, grande vencedora nacional e melhor da raça pelos rankings CBKC 2019, 2021 e 2022 Argos’
Legacy China Girl, campeã mundial no FCI World Dog Show Brasil 2022, onde também obteve classificação de grupo
Fotos: Arquivo do criador dos cães (Marcio Luís de Medeiros)/Cães: Kwan Yuri Chow Eashik Cocada e Kwan Yuri Chow Mac
Entre os cães mais premiados de Marcio, Cocada (hairless) e Mac (Powder Puff) se destacam: “Personificam o padrão de excelência que busco”, diz ele

O Cão de Crista Chinês, por ser vistoso, elegante, chamativo e aprender facilmente os comandos típicos das pistas, tem tudo para chamar a atenção dos juízes, mas Nateusca observa um senão: “Os exemplares da raça costumam demonstrar um pouco de timidez, principalmente no início”. Jessica acrescenta: “É importante ressaltar a necessidade de uma socialização bem feita desde muito cedo, pois eles podem de fato apresentar tendência à timidez, especialmente quando não expostos de maneira positiva a diferentes ambientes, sons e estímulos. Sem esse trabalho, é possível que alguns cães se assustem com barulhos ou situações novas, o que pode impactar diretamente em seu desempenho nas pistas”. Marcio faz um alerta: “Para o Cão de Crista Chinês, o temperamento é um pilar fundamental nas exposições: ele deve ser alegre e seguro. Infelizmente, é comum observarmos, em pista, exemplares mal condicionados ou que demonstram insegurança através da cauda baixa, o que descaracteriza o spirit da raça”. Sérgio acrescenta: “Para esse cão se destacar em exposições ele precisa ter movimentação correta, com bom alcance e propulsão; ótimo temperamento; dorso plano, de médio a longo comprimento, ou seja, jamais ser um cão quadrado; ter orelhas e cauda bem inseridas; olhos escuros e boa proporção crânio e focinho”.

Agradecimentos:
Jessica de Souza Lima, canil Jess Royals – (47) 99632-9641, Instagram: @jessroyalsfamily, www.jessroyals.com.br, [email protected]
Márcio Luís de Medeiros, Kwan Yuri Chow Kennel – Instagram: @kwanyuri
Nateusca Fernandes, Eashik Kennel – (13) 99666-3003, Instagram: @eashikkennel e @nateusca, www.facebook.com/eashikkennel
Sérgio pinho Alves, Argos’ Legacy Kennel – (81) 99977-8204, Instagram e Facebook: @argoslegacy

Por Fabio Bense

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